«Eu gemi n'um carcere longos mezes. Visitou-me a fome, a sêde, o frenesi da loucura, o terrivel nunca mais, essas duas palavras malditas que encerram todo o fel das amarguras humanas. E, no tumultuar de tantas penas injustas, nunca a justiça divina me disse que esperasse o dia do resgate, a corôa do martyrio immerecido, a vista da mulher chorada que me vinha consolar nos instantes do lethargo, e fazer suave a pedra em que eu encostava a cabeça abrasada. Nunca. Gemi no desamparo, como o malfeitor repulsivo, que a sociedade lançou de si maldito, e maldito de Deus nem sequer podia esperar a purificação do remorso.
«Que mal fizeras tu, pobre mulher? Por que te mortificaram os homens, e como consentiu um Deus justiceiro o tormento que te deram?
«Que mal fizera eu, homem de consciencia pura, que passei os annos da minha mocidade estudando os raros exemplos de virtude que me encantavam o coração?
«Padecemos, porque fomos escravos da honra, Carlota Angela.
«Se eu passasse por cima dos respeitos humanos, terias sido minha amante, serias hoje minha esposa, e a sociedade apontar-nos-hia como modelo de amor fiel e devotado a todos os sacrificios. Faltou a culpa, para que a fortuna nos não ludibriasse. Era necessario o crime para sermos hoje felizes. A virtude o que é?
«A minha honra reduziu-me a isto que eu sou. Sacrifiquei-te aos deveres que a minha probidade me impunha, e fiz-te a desgraçada que hoje és.
«Quero salvar-te, Carlota, e quero que me salves.
«Apparece-me, filha da minha alma; vem ouvir-me, porque a nossa época de felicidade começa hoje. Não ha para nós n'este mundo mais que nós mesmos. Tudo que se oppozer ao destino que vamos seguir, é mentira, é perfidia, é uma nova traição que te armam, Carlota.
«Sorri á esperança, martyr! Irradie em volta de ti o sol de esperança que me está abrilhantando o futuro. O coração delira-me de alegria no peito, onde não cabe. Agora conheço que me pertences, que te não perdi, que és mais minha por um direito de torturas, que valem mais que todos os juramentos. Sacode as algemas que a hypocrisia te encadeiou nos pulsos. Deixa voar o coração, que um voto sacrilego ou impostor te assellou ao nada da uma esperança estupida ou fementida. És livre, Carlota. A tua alma não podia obedecer ás suggestões de malvados, porque era minha.
«Agora te digo que venho pedir contas do teu juramento.