«Carlota Angela, estou aqui! Pertences-me.»

A freira acabava de ler esta carta, e correra á grade, onde a esperava Mendonça.

Não dizem os nossos apontamentos o que se passou na grade. Se escrevessemos de imaginação, dava-se aqui um dialogo plangente, travado de exclamações, umas de expansão maviosa, outras de frenesi insano. O mais natural, na situação dos dois infelizes, é chorarem longo tempo silenciosos. Devia a sua dor ser uma das que suffocam e entalam na garganta o gemido. A desesperação mataria n'elles o jubilo de se verem: a freira não poderia dizer a Mendonça: «sou tua». N'aquellas grades, duras e inflexiveis como o «cumpra-se» terrivel do destino, estava escripto o impossivel. Entalal-as, espedaçal-as, só a mão sacrilega do crime poderia. Carlota ha de rasgar o véo, ha de calcar o habito, ha de passar por cima da sua virtude, da sua religião, do seu esposo celestial, se quizer dizer a Mendonça: «sou tua».

Devia, pois, ser melancolico além do exprimivel o que ahi se passou n'essa grade; triste, e desgraçado direi, a julgal-o pelas consequencias, que se vão descrever, com um certo pezar em que esperamos tomem os leitores o seu quinhão de pena, se não todos, ao menos aquelles que não dão nada pela felicidade da terra, quando ella implica offensa ao Senhor do céo.

Se as calamidades que promanarem d'esse encontro não forem das que matam os agentes da sua propria desgraça, e, ao mesmo tempo, escandalisam a moral, a quem ha de a moral condemnar? em que ponto d'esta escabrosa senda da vida quereis que se levante o signal de aviso para acautelar os ignorantes do abysmo que as flores escondem?

Nao sabemos, não o sabem os que teem a experiencia das quédas, e vão caíndo sempre no golfão, para onde os allicia com blandicias uma attracção satanica. Estamos fartos até ao tedio de ouvir dizer que o homem é bom, que o homem é mau. O homem não é bom nem mau de seu natural: é aquillo que o fazem ser; é o que realmente deve ser n'este mundo, segundo a organisação d'este mundo, organisação viciosa, aleijada, falsa, peccaminosa, quer o defeito começasse no paraizo terreal, quer nos multiplicados infernos que as idades se foram inventando através das civilisações.

O leitor tem o juizo necessario para se não dar á canceira de interpretar essas linhas assim com assomos de dogmaticas. Este romance pecca por acaso em divagações philosophicas, e n'isso está cifrado o merito não vulgar de um livro que sustenta o caracter singelo e lhano desde a primeira pagina, para que aos mais myopes se não esconda a luz debaixo do alqueire.

Reparou soror Rufina em sua sobrinha, na volta da grade; achou-a serena de mais, risonha até; um lampejo de alegria interior que lhe reaccendia nos olhos a luz que as lagrimas haviam apagado. A velha freira, já apalpada por infortunios de amor, não conjecturou d'aquella inesperada alegria tão innocentemente como Carlota cuidava. O temor que a sobresaltou presagiava a verdade, mas tão desgraçada era a verdade, que a freira antes quiz desmentir o proprio presentimento, do que interrogar a sobrinha, innocente talvez.

—Como vens alegre, Carlota!—disse ella.

—Fiquei mais desopprimida, minha tia; o muito chorar faz bem... estou muito melhor, e agora espero vencer o infortunio.