—Lá vou, snr. Francisco Salter de Mendonça, lá vou; mas será bom que se previna, se ainda me não adivinhou... A filha do tal snr. Norberto confirma o dictado de que de ruim arvore, nunca bom fructo.

—Quer dizer que...—interrompeu, coriscando fogo dos olhos, o impetuoso mancebo.

—O senhor vejo que se enfada... Estou arrependido de cá vir com similhante...

—Com similhante commissão?!—concluiu Mendonça, erguendo-se em attitude ameaçadora.

—Commissão!—gaguejou o interlocutor com sensiveis signaes de surprendido.

—Sim!... diga o resto, quero ouvir o resto; mas depressa.

—V. s.ª está fóra de si!—tornou o atrapalhado homem, lançando a mão ao chapéo e á bengala—Eu não vim aqui offendel-o, e v. s.ª recebe-me de um modo que eu não mereço... N'esse caso retiro-me.

Mendonça, sofreando a cólera, tomou-lhe da mão urbanamente o chapéo, e obrigou-o com branda coacção a sentar-se.

—Desculpe-me este desatino. O senhor, se alguma vez amou, deve passar-me por esta escandecencia propria de um rapaz ardente, com o coração ainda intacto d'essas punhaladas que, muito repetidas, chegam a matar a sensibilidade. Estou de animo frio para escutal-o. Queira v. s.ª continuar.

—Eu...—disse o portuense, disfarçando ineptamente o sobresalto—eu... se aqui vim, foi para o desenganar... e mais nada...