--É realmente... que a virtude tornou-se em nossos dias uma apparição extraordinaria, e milagrosa,.. Gostaste d'elle?

--Quem me dera ser o que elle é...

--Isso é que é extraordinario, meu filho--exclamou o velho.

--Amar um bem, que não podemos possuir, é tão proprio do homem... Que acha o pae de extraordinario, n'este meu desejo:

--Muito, muito, meu caro Alvaro!... Tu hontem não falavas assim...

--Tambem meu pae não amava a formosura de minha mãe, antes de conhece'-la... A virtude é como a virgem, que um homem estragado vê na vertigem de uma orgia, mas não póde ama'-la sem approximar-se realmente do original d'essa sombra phantastica. Sabe meu pae o que eu amo em padre Antonio? É a transparencia d'aquella face, que deixa vêr um bello coração. Amo-lhe a paz, a firmeza, a confiança com que censura os crimes, sem irritar o amor proprio do criminoso. Amo-lhe a independencia com que falla, e a soberania com que responde. Parece que Deus o manda falar! É um bello caracter! A sociedade, se conhecesse este homem, adorava-o!

O jubilo de Gonçalo da Silveira era um delirio. Parece que lhe não ouvira as ultimas palavras. A emoção sublimára-se até ás lagrimas. Alvaro tocado por uma scena, que nunca elle se julgára capaz de estimular, recebera seu pae nos braços, com vehemencia, com transporte, com amor de filho, sentimento para elle novo!

XIII

Do abalo á conversão vae um grande espaço, eriçado de espinhos, que, primeiro, medram nas lagrimas, e, no fim, se transformam em flores.

Amar a virtude não é esposa'-la. Rainha de dois mundos, com formosura immortal, a sua posse custa muitos sacrificios. No estrado do seu throno, pisam-se as paixões do mundo. Os labios, que a saudam, devem ter sido abrazados pela oração contricta.