--Amá-la!?...--interrompeu o pae com sobresalto.

--Amá'-la, sim, pois não é isto amá'-la? O que sinto, o que senti, vendo-a uma só vez, tem alguma semelhança com tudo o que me fez vertigens do coração n'outro tempo? Amá'-la, sem que eu lh'o diga, adorá'-la, com a devoção dos justos, recolhe'-la em segredo á minha alma, e tão em segredo que nunca ella possa temer uma só palavra menos innocente que todas as nossas conversações... ama'-la, assim, meu pae, provocar as tempestades do coração?

--É, filho.

--É? então, meu Deus, não ha virtude que resista ao impulso de uma mulher! O homem, que quizer viver em boa paz com o céo, ha de renunciar a tudo que está na terra proclamando a grandeza de Deus. A religião, que nos não veda o amor, está em contradição com a virtude...

--Não está, Alvaro. A religião creou um sacramento para santificar o enlace dos corações que se inclinam para um fim justo, para uma união em que a virtude é o vinculo de cuja quebra ha tremendas contas a dar, e grandes expiações a soffrer na terra.

--Pois bem, meu pae...

Alvaro sustára o pensamento que vinha aos labios, em quanto as lagrimas se mostraram.

--Diz, Alvaro. Tu ias dizer alguma cousa que te fez chorar. É sensibilidade ou arrependimento?

--Melhor é que o não diga, meu pae... Eu preciso estudar-lhe o coração.

--De D. Maria dos Prazeres? não é necessario, filho. O coração d'essa menina não é um livro fechado, é um espelho. Vê-lh'o na face, nas palavras, na educação...