—Vou contar-te tudo... has-de ouvir-me tudo sem te magoares, sim?

—Tudo, filha...—balbuciou D. Julia traspassada por dolorosa suspeita.

—Olha que meu marido... ama-te.

—Jesus!—exclamou a noiva de Venceslau affectando naturalissimo pavor.—Tu deliras, Anna!

—Não deliro, infelizmente não deliro... Eduardo ama-te... Queres saber como eu descobri esta desgraça que nunca me resvalou pelo espirito, apesar das palavras que me elle dizia de ti, e todas agora me lembram para me atormentarem?... Olha... quando elle hoje ás quatro horas chegou da repartição, perguntou-me se eu tinha sahido, porque me viu vestida como fui a tua casa. Respondi-lhe que estivera comtigo e recebera a inesperada nova do teu casamento com Venceslau. Não te posso pintar o transtorno das suas feições! Fitou-me com os olhos espavoridos, e perguntou-me em tom desabrido: «Que historia extravagante é essa?»—Isto não é historia—disse-lhe eu—é a noticia que me deu Julia. Mas ficaste assombrado! Estás pallido! Que tens? que te importa que Julia case ou que não case?—«Não me importa nada...—respondeu elle, disfarçando miseravelmente a agitação—não me importa... mas o espanto{204} é, n'este caso, bem natural!... Pois hontem ainda estive com o Taveira, e com ella... e nada me disseram...» Continuamos a conversar sobre o assumpto, sem elle poder dominar a ancia em que estava de se esconder aos meus olhos... Chamaram para a meza...; e Eduardo n'esta occasião, muito perturbado, tira o relogio, vê as horas, e diz: «não janto cá hoje... Hei de estar infallivelmente ás quatro horas em casa do Sepulveda... Desculpa-me... que não posso faltar.» E, quasi sem esperar que eu o contrariasse, sahiu com os olhos desvairados como um ebrio... e não voltou ainda. Aqui tens a minha enorme desventura... aqui me tens na angustia que nunca podia prever a minha alma preparada para as maiores provações... Até hoje, eras tu a minha consoladora... Que has de ser tu para mim de hoje em diante?

—O que fui sempre...—disse Julia com firmeza. Se as tuas suspeitas são verdadeiras, o desatino de teu marido ha de ser curado com a vergonha de me ter querido vêr na plana d'algumas infames que elle terá conhecido.

—Pois sim; mas não serei eu a victima?

—Não, minha filha; se houver alguma victima, não o serás tu...

—Então quem?

—Elle...