—Sim, Julia; e, quando fosse, o teu nobre procedimento está bem justificado n'aquella carta. Eduardo queixa-se de ter sido repellido... Que outra coisa podia esperar eu de ti? Queixar-me porque m'o não disseste, seria fazer injustiça á tua prudencia... Todo o teu empenho de boa amiga devia ser que eu ignorasse a indigna tentativa de Eduardo... Permittisse Deus que elle me não désse rivaes com menos virtude...

—Rivaes!—contradisse Julia irritadamente.—Rivaes são as que acceitam a competencia... É preciso{206} que duas mulheres amem o mesmo homem para que se chamem rivaes. Em quanto eu desprezasse as declarações de teu marido, não devias dar-me nome tão injurioso...

—Então confessas que era para ti a carta?

—Se confesso!...—tartamudeou Julia.

—Sim... tu não pódes enganar-me... Vejo-te a alma nos olhos, e a perturbação nas palavras... Tens piedade de mim, não tens? Então dize-me que meu marido te escreveu... que tu lhe respondeste como devias... e que elle te mandava depois aquella carta...

D. Julia apertou ao seio a face lagrimosa de D. Anna, balbuciando:

—É verdade... é atrozmente verdade que teu marido me escreveu... Não te peço perdão, porque não tenho de quê. Na resposta, que lhe dei em duas linhas escriptas na sua mesma carta, ameacei-o de te mostrar a segunda, se m'a elle enviasse... Lembra-te das palavras.

—Que eu não pude entender... bem me recordo... Se V. Ex.ª cumprir a ameaça que me escreve, se me denunciar, fará duas victimas. Mata uma innocente, e ordena ao criminoso que se suicide... Era isto; mas—proseguiu Anna em pranto desfeito—o meu infortunio ainda assim fica sendo enorme... Se te elle ama com tamanha paixão, e te vê casada, e perdida para sempre, onde o levará o desespêro...

—Paixão!...—repetiu Julia motejando a palavra.

—Paixão, sim... pois, se o não fosse, Eduardo teria a fraqueza de alterar-se a tal ponto? Sahiria de casa{207} como louco? Teria escripto uma carta em que tantas vezes falla no suicidio?...