Esta palavra deu nos labios tremulos de Julia um sonido gemente, ao mesmo tempo que as lagrimas a quatro deslisavam nos cantos da bocca.

E Venceslau mergulhava uma profunda vista d'alma no abysmo d'onde sahiam aquellas lagrimas. Tudo trevas.

—Eu suppuz que a pobre Anna Vaz te escrevêra...—tornou Venceslau, procurando desassombrar o silencio em que estiveram alguns segundos.

—Não...—disse ella, cobrando alento do insuspeito ar do marido.

—Recebi este bilhete do commendador, e sahi immediatamente das côrtes. Lê... Eu t'o leio. «Meu nobre amigo. Vae hoje um inferno n'esta casa. Romperam-se os diques da prudencia. A minha santa filha, por já não poder com o martyrio, insurgiu contra o algoz. Sei que o facho d'este incendio, que me queima o restante da vida, é o ciume; porém, a nobre menina, se eu lhe pergunto a causa nova d'esta insupportavel affronta—insupportavel em relação d'outras que soffreu com paciencia—chora, e não me responde. Rogo-lhe, meu querido Venceslau, amparador do meu chorado Antonio, que o seja tambem da malfadada irmã. Venha applacar esta feia tormenta que ameaça engulir a vida da minha infeliz Anna.»{257}

—Aqui tens a carta—proseguiu Venceslau.—Não quiz lá ir sem te avisar. Se quizesses ir tambem...

—Não posso...—disse ella no maior grau de quebranto moral.—Vae tu... depois me dirás... Vae...

E apertou-lhe a mão estremecidamente.

—Tens fogo n'esta mão... acudiu o esposo com enternecido susto.

—É febre... disse ella, fitando-o piedosamente.{258}
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