A saleta, em que principiou a vigorosa altercação, exacerbada muitas vezes n'aquelle dia, tem tres portas: uma que abre para o corredor onde está Venceslau; outra que diz para a alcova onde demoram os leitos dos tres meninos; e a terceira que leva á camara dos esposos. N'esta camara ha outra porta que communica para outros repartimentos, por entre os quaes ha escada para um patim, que dá sahida para o quintal ajardinado. Esta era a serventia regular de Eduardo, quando recolhia tarde, entrando pela porta do quintal que entestava com a rua dos Cavalleiros.{261}
Ao avisinhar da salêta colligiu Venceslau que Eduardo, seguido da esposa, que talvez o ia retendo em grandes clamores, sahiu do quarto, e evadiu-se pelo interior da casa, descendo ao quintal para esquivar-se ás importunas lastimas.
N'esta acertada conjectura, deliberou Venceslau seguil-os, bem que ainda, ao entrar na salêta, o contivesse o decoro de atravessar uma alcova de esposos.
Durante os breves segundos da perplexidade, reparou em papeis dispersos no pavimento. Suppoz que eram cartas occasionaes da desordem, talvez colhidas ardilosamente nas algibeiras do imprevidente marido.
Venceslau envergonhar-se-hia da sua sombra, se se curvasse a devassar alguma d'aquellas cartas; mas, sobre uma banqueta que occupava o centro da ante-camara, estava meio amarrotado um papel escripto, cujos caracteres deram logo e mais de perto na vista de Venceslau.
Era lettra de D. Julia.
Hesitou ainda em lançar mão do papel; mas a particularidade dos signaes impressos na carta por mão que a enrugasse, estimulou-o a vêr que phrases deram causa ao phrenesi de Eduardo. Tanto quanto a rapidez de tal juizo consentia, Venceslau imaginou que o pessimo marido se exasperára, talvez, por ter lido cartas de compaixão de Julia para a sua mortificada amiga.
Pegou do papel, distendeu-o, leu a primeira palavra no alto da lauda, alisou um vinco onde uma lettra parecia desfeita, releu e... vibrou-se todo no estremecer{262} dolorosissimo de homem que um subito ferro encravou pelo peito. A palavra era querido. A lettra final d'ella não era um a.
Leu a carta rapido, offegante, respirando a trancos, sopesando o arfar do peito. Dizia assim:
«Calcula a minha inquietação, meu E.! Não pude dissuadir a creada... Sahiu, regeitando todas as minhas dadivas. Foi uma desgraça que ella te visse... Devo isto ás tuas imprudencias. O que mais me assusta é o padre, que está espantado com tal sahida. Elle tem sido o confessor d'ella. Se a interrogar no confessionario, arranca-lhe o segredo. E depois?... que hei de eu fazer?!... Espero que o padre me não denuncie... mas com que olhos me ficarão espionando os passos!... Não voltes aqui em quanto eu não te avisar. Vae todas as tardes ao logar que sabes. Lá irá ter a minha carta; mas, repito, não voltes aqui sem que eu t'o diga. Prudencia, ouviste? Olha que a situação é muito seria... Tenho-te dito muitas vezes que o V. é capaz de tudo... Adeus. Cuidado com as minhas cartas...»