—Estava a scismar n'isso tambem eu...

—Olha que ha desgraça!... Não vês o papá tão carrancudo?

—Já reparei... Vae tu até lá dentro, e não voltes á sala sem me ouvir tocar no cravo.

Anna sahiu, e Julia aproximou-se do commendador que lia, ou fingia lêr, o Astro da Lusitania.

—Que ha de novo? Está lendo o artigo do nosso deputado?—perguntou ella, curvando-se para o periodico.—Já li... Ninguem dirá que d'aquelle rapaz tão{120} sereno e moderado possam saltar essas faiscas de colera contra as ideias antigas! É um ethna escondido em moitas de flores, não acha, snr. commendador?

—É um apostolo de boa fé, um peito cheio de honra, que se offereceu ao martyrio das ideias novas. Tem a devoção dos cathecúmenos de todas as religiões. Trabalha para os que hão de vir, não é para elle. Sahiu d'uma familia illustre do velho Portugal para servir de degrau aos que hoje calçam sapatos ferrados.

—Porque não o aconselha? Diga-lhe que seja mais prudente no que escreve; que não esteja a ganhar inimigos... Quem sabe lá onde isto vae dar? Os prejuizos não se pulverisam com palavras, nem com gazetas. Eu ouço todos os dias vaticinar que este governo ha de durar pouco. Em casa do tio Gião ouvi hontem dizer que os monarchas formaram o congresso de Laybac para enfrear as demasias da liberdade, e que D. João VI não levára a mal que o governador da Ilha Terceira resistisse á proclamação do systema constitucional.

—Vejo-a muito enfronhada em politicas de seu tio desembargador Gião, minha senhora D. Julia!—observou graciosamente o commendador.

—A mim que se me dá de politicas!—retorquiu a dama.—O que eu desejo é não vêr expostas com tanto perigo as pessoas que estimamos. O Pimenta parece-me que adoptou mais sensato papel nestas tragedias. Não quer saber de nada; não se importa com gazetas nem com governos. A emigração aproveitou-lhe... É verdade, elles não virão hoje? São dez horas!{121} O Taveira talvez esteja na reunião dos deputados; mas o outro onde estará? São horas do chá...

—Se são horas, não esperemos, menina, que elles não vem.