—Ah! o snr. commendador já sabia que não vem?!
—Já. Fallaremos ámanhã, snr.ª D. Julia. Eu hei-de procural-a...—E abaixando a voz, continuou em segredo:—Eduardo Pimenta comportou-se indignamente comigo. Se lhe não dou a novidade de se estar planeando um casamento n'esta casa sem minha licença, escuso de motivar-lhe o rompimento de relações com tão inconveniente amigo. Pelo que toca a Venceslau Taveira, esse não vem porque não quer. Sinto-o devéras. É homem de honrada tempera. Lastimo que os seus amigos o não mereçam...
D. Julia, cogitando na inquietação da amiga, não prolongou as segredadas confidencias. Acercou-se disfarçadamente do cravo e dedilhou no teclado. O commendador ergueu o rosto de sobre o periodico, fitou a hospeda e disse-lhe:
—Onde está Anna?
—Vem ahi.
A menina entendeu o relance d'olhos de Julia. Detiveram-se alguns minutos silenciosos na sala. O velho continuou a ler, em quanto Julia, interrogada pelos olhares anciados de D. Anna, esperava o ensejo favoravel de apartar-se com ella e revelar-lhe as más novas.
Do mesmo passo que o commendador ouvia contrafeito as prophecias politicas de um primo conego da patriarchal,{122} que alli ia sempre, depois de ceia, digerir o bôlo copioso, psalmeando threnos em prosa de conego sobre a futura perdição dos cabidos, D. Julia referia, commentando as palavras do pae da sua amiga.
D. Anna Vaz, primeiro estupefacta, depois agitada, e por fim afogada em lagrimas, escondeu o rosto no seio de Julia para que as criadas lhe não ouvissem o soluçar. Baldaram-se as consolativas esperanças da confidente, que parecia não ter nenhumas nos seus alvitres. Pelo espirito de qualquer d'ellas não sombreou sequer o mau pensamento de recorrer da vontade paterna para o poder civil. N'aquelle tempo as paixões das donzellas, contrariadas pelos paes, raras vezes iam dizer da sua justiça no tribunal. Usavam-se então umas mordaças, que fechavam os respiraculos dos corações rebeldes ao alvedrio paternal: era o convento. O mais egregio amor de mulher, leal ao seu amador, era aquelle que de bom animo vestia o habito monacal, e depunha aos pés da cruz a corôa do noivado. Estas nupcias com o divino esposo quasi sempre se contrahiam, levando a esposa o coração repleto de odio e calor do inferno para o cenobio, onde mais tarde a benigna hypocrisia lhe segredava refrigerios e tonicos restaurantes.
N'isto cogitava D. Julia de Miranda, quando disse á sua amiga:
—Faz o que te peço, filha. Não mostres resistencia á vontade de teu pae. Finge-te resignada. Entrega ao tempo o que não podemos conseguir com irritações; que não vá teu pae fechar-te no convento, onde eu estive{123} dois annos por causa de teu irmão. Cuidei que poderia recalcitrar, porque era tratada com mimo de filha unica. Enganei-me. Fui convidada a dar um passeio até ao Campo Grande; voltamos a visitar a tia Clotilde no convento de Sant'Anna; entrei na portaria para abraçal-a; e lá fiquei infernada até que meu pae me tirou por saber que teu irmão, envolvido com os jacobinos, emigrára para Londres. Aprende de mim, filha. Dissimula quanto poderes, e confia no tempo e nos milagres da tua constancia.