—Então, caro senhor meu, não só viu, mas estudou muito—volveu Venceslau Taveira, afagando o lubrico dorso do gato que, estrouvinhado pela incommoda palestra, se remechia no regaço do dono, resmuneando, e afofando o ninho para recomeçar o seu placido dormir.—Escusava de sahir de si proprio, snr. Silva, para vêr o homem qual é em toda parte—proseguiu o velho.
—E, se eu quizesse vêr um homem distincto do commum—tornou o meu amigo—bastar-me-hia ter conhecido V. Ex.ª{12}
—Distincto, quer dizer, distincto na infelicidade...—acudiu Taveira.
—Na honra e na virtude—emendou Luiz da Silva.
—Agora vejo que não estudou nada... Vaidade, tudo vaidade, e... algumas lagrimas.
E, voltado contra mim, perguntou:
—O seu amigo disse que v. é da provincia. É minhoto?
—Tenho vivido no Porto—respondí.
—Lá viví tambem dois annos e tanto. Os suburbios são graciosos, quanto me podiam parecel-o atravez do fumo das batalhas. Sou um dos sete mil e quinhentos. Conservo recordações agradaveis de umas grandes arvores da quinta do Vanzeller. Verdade é que as contemplei em posição molesta. Havia-se-me cravado uma bala na perna direita, e assim estive duas horas esperando a maca. Foi n'este espaço de tempo que eu, confrangido, de dôres, admirei a serenidade das arvores, e ponderei a vantagem de ser vegetal, estranho ás côrtes de Lamego e á constituição da monarchia. E a impassibilidade das carvalheiras aparando as balas no seu arnez de cortiça! Tudo é grande e forte, excepto o homem! O homem... esse é um mixto de odios, de angustias e vaidades, segundo assevera o nosso viajante Luiz da Silva...
Proseguiu o ancião, entremeando de discretas jocosidades a deleitosa conversação, que durou duas fugitivas horas.{13}