«Assisti espiritualmente ás missas que se resaram em acção de graças por esse motivo. V. Ex.ª sabe que no amago das coisas mais serias e graves ha sempre um sedimento[{16}] comico, o qual, bem esgaravatado, apparece. Este meu soneto, é o sedimento metrificado em rimas ordinarias e pouco felizes. Eu me persuado que o alto espirito do sr. Marianno de Carvalho se riu das taes missas, primeiramente que eu. Essa luminosa pratica do Catholicismo, que enveste Nosso Senhor Jesus Christo da qualidade, pouco divina, de fiscal e arbitro dos desastres em caminhos de ferro, figura-se-me um contra-senso prehistorico a todas as religiões conhecidas. Seria para mim um germem de revolta e descrença na suprema justiça, saber eu que o sr. conselheiro Marianno de Carvalho saiu do descarrillamento illeso de perigo, sem uma ligeira escoriação na sua epiderme, tendo-me succedido ha 9 annos sahir d'igual desastre com a cabeça oito vezes fendida. Não me posso convencer de que Sua Divina Magestade revellasse tamanha ausencia de[{17}] imparcialidade, como architecto supremo que dirige as cousas do Universo, e principalmente as que em Portugal respeitam ao sr. Marianno de Carvalho e a mim, quando viajamos. Seja como fôr, desejo ardentemente que o sr. conselheiro, dando-me a honra de ler este soneto, haja por bem de o applaudir com um sorriso.»

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O Soneto: Logica de ferro, foi enviado com a seguinte carta a um jornal que o regeitou como inconveniente e desorganisador do systema de convenções methodicas em que todos estamos mais ou menos illaqueados.

«Mande publicar o soneto que lhe envio, senão fôr hostil ás suas opiniões theologicas, em tal assumpto. Eu por mim, pendo a favor[{18}] do Patriarcha, padre catholico, na linha recta dos seus deveres, entre os SS. PP. e os concilios. Aquelles que invectivam o Cardeal, e ao mesmo tempo promovem suffragios por alma d'El-Rei, não digo sejam hypocritas; mas aproveitam a methaphysica do catholicismo para alardearem um espalhafato de piedade.

«O padre catholico opera convicto e por consequencia correcto. Os outros servem-se da religião theatralmente. Como quer que seja, eu me persuado que El-Rei D. Luiz I está serenamente recostado no seu leito de marmore no Pantheon de S. Vicente de Fora; e quem se lembrar da bondade da sua alma, no transcurso de 28 annos de prospero reinado, presta á sua memoria a mais sagrada homenagem com que os vivos podem suffragar os mortos.»[{19}]

SENTIMENTO

[{21}]

I
O Conde de S. Salvador de Mattosinhos

O conde entrou no albergue arruinado
De S. Miguel de Seide. Era anciosa
A vida que eu vivia tormentosa,
Á cegueira fatal já condemnado.

Eu vi-lhe o coração bondoso e honrado
Na face ingenua e triste e maviosa;
Pulsava n'elle a nota dolorosa
Do estranho soffrimento recatado.