Eram quatro as philarmonicas chamadas a festejarem a entrada de Antonio Duque no concelho. A musica de Landim, famosa por seis cornetas de chaves, que executavam valsas e peças theatraes, de modo que, se Ducis as ouvisse, diria que a opera lyrica balbuciára os seus primordios entre as florestas druidicas. A banda de Fafião competia com a de Guinfões na substancia das trompas e troada das caixas. A de Ruivães avantajava-se ás tres rivaes na delicadeza das modas e sentimentalismo com que as charamelas respiravam o sopro d'aquelles musicos, cujas bochechas pareciam estar cheias de alma e castanhas assadas.

Sou um homem feliz e digno de inveja. Tenho saboreado os innocentes deleites que prodigalisam ao seu auditorio as quatro bandas musicaes de Landim, Fafião, Ruivães e Guinfões. Quando algum amigo vai alegrar o ermo de S. Miguel de Seide, chamo logo a musica mais delicada, a de Ruivães; principalmente se o amigo é de Lisboa, e frequentador de S. Carlos. O senhor visconde de Castilho e seu filho Eugenio são chamados a depôr n'este processo da immortalidade que vou instaurando ao figle e á requinta, principalmente á requinta de Ruivães. Não vi o senhor visconde chorar de prazer, mas observei que s. exc.a estava commovido quando a requinta assobiava uns guinchos estridentes da Maria Caxuxa.

Thomaz Ribeiro, o poeta eminente, recolhia-se ás vezes, não ao seu quarto a calafetar os ouvidos, mas ao intimo de sua alma a fazer viveiro de inspirações. Eugenio de Castilho, o poeta das phantasias louras, quer a musica de Ruivães lhe amolentasse a sensibilidade, quer os rouxinoes das ramarias lhe déssem invejas dos seus amores, fosse o que fosse, foi assaltado e vencido d'uma paixão.

Esta paixão tem uma historia. Não sei se elle tenciona escrevel-a nas suas memorias posthumas; e, assim, contal-a eu, é esbulhal-o da novidade e primazia; desconfio, porém, que o meu hospede e amigo desconhece a historia d'aquella raparigaça de cabellos de ouro e ancas boleadas que deslumbrava a duzia de moças requebradas que lhe apresentei na eira.

Chamava-se ella Amelia de Landim. Contava-se que tinha vindo para alli da roda dos expostos de Barcellos. Naturalmente, porque era linda e pobre, ou se vendera ou tinha sido vendida. Assim se disse; mas o certo foi que um filho de lavrador rico lhe dera o impulso no alto da ladeira, ao fundo da qual estava a voragem. Póde ser que a alma se abysmasse e requeimasse no fogo dos infernos por onde resvala a mulher perdida. Póde ser. Do corpo é que ella não perdera a menor belleza; nem sequer o viçor dos dezoito annos.

Teria então vinte e cinco. Não era belleza peninsular. Aquelle escarlate, os olhos azues, os opulentos cabellos louros, a pujança das fórmas, a musculatura rosada e rija, a elegancia congenita, o riso, a desenvoltura sem despejo, a graça lubrica do trajo, em fim, a mulher, os arvoredos, a musica de Ruivães, nomeadamente a requinta, e em meio de tudo isto um rapaz de vinte e dous annos, poeta porque é Castilho, e ardente porque é trigueiro, e apaixonado porque é ardente, eis aqui o porquê d'aquelles amores.

Castilho carecia de um confidente com ouvidos e critica. A poesia não lhe deu para se confidenciar com os sobreiros da mata, nem me consta que elle se andasse a entalhar na cortiça iniciaes e datas.

O seu confidente foi o morgado de Pereira, ultimo senhor da honra e couto de Esmeriz, um rapaz de grande coração, que eu apresentei, no Limoeiro, a José Cardoso Vieira de Castro, que, em 5 de outubro do anno passado, morreu no degredo, para onde o acompanhou aquelle morgado. Este neto dos Ferreiras Eças, e dos remotos castellões de Riba d'Ave, é hoje em Cassengo, na Africa, negociante de café, de marfim, de gommas, de farinhas, etc. Depois de haver bandarreado vida de fausto, com muitas illusões perdidas, mas pouquissimas lagrimas, porque a desgraça lhe anda sempre a morder os tacões das botas, em dia de fieis defuntos, ajoelhava, e então chorava, no cemiterio de Loanda, defronte do cómoro onde jaz Vieira de Castro, o mais sublime desgraçado que os homens injuriaram, desde que o sol de Deus aquece condições de feras dentro dos covis que se chamam arcas do peito.

Ó meu caro morgado, estas linhas não chegam ao seu sertão, nem eu desejo que as leia, para lhe não darem rebates de saudade d'aquellas noites de 1866, quando vossê e mais o seu gentil confidente, com intervenção da lua, fallavam da Amelia de Landim, em quanto os meus queridos visconde de Castilho e Thomaz Ribeiro se embellezavam nas trovas da Custodia da Feira, que seria Hypathias, se nascesse na Grecia, ou Corina, se os amavíos de Italia lhe coassem no seio cousas mais limpas do que as coplas que a trovadora do Minho tirava do estomago em perfumes de vinho verde.

Não sei como Eugenio de Castilho sahiu de S. Miguel de Seide, pelo que respeita á alma. Lá dizia-se que Amelia, a douda, vehementemente apaixonada, iria depós elle. Eu receei o lanço de fino amor, d'onde adviriam ao meu hospede agros desgostos. Se os de Lisboa lh'a vissem, quantos rivaes, que mordentissimos ciumes! Aquillo era mulher para destinos extravagantes. Que a sentassem n'uma friza de S. Carlos! Os binoculos assestados n'ella seriam tantos como as paixões, e ao outro dia a engeitada de Landim, se não fizesse ministerios, havia de fazer muito amanuense de secretaria, e dar vazão ao estanque de muito bacharel.