--Respondo, minha senhora. Quando v. exc.a tinha dezoito annos, seu pai indagou e descobriu que a snr.a D. Amelia estava aqui; porém, ao mesmo tempo, exactas ou inexactas informações lhe asseveraram que a senhora levava uma vida pessima, deshonrada e cheia de opprobrio. Receou, com algum fundamento, o snr. Alvaro de Mendanha que o aviltamento de sua filha desluzisse o lustre do seu nome, e por isso abafou o coração e o remorso debaixo do peso da dignidade, ou recuou diante da irrisão do mundo...
--Mas...--interrompeu Amelia--se eu estava perdida, foi porque elle me atirou ao mundo e á sorte sem amparo de ninguem...
--Tem razão, minha senhora, e foi essa mesma a razão que moveu seu pai a deixar-lhe todos os seus bens.
--Mas eu antes queria conhecel-o e ser pobre, que ser rica por morte d'elle.
--Já que não é remediavel essa nobre dôr--tornou o testamenteiro de Mendanha--receba v. exc.a a suprema prova do arrependimento de seu pai. N'este legado dos bens está o legado do coração. Seja de hoje em diante v. exc.a digna d'elle, já que desde esta hora os seus appellidos são dos mais illustres d'esta provincia.
N'este mesmo dia, D. Amelia de Mendanha sahiu para Barcellos, onde entrou a occultas para o palacete de seu pai, a fim de trajar luto e apparecer convenientemente aos numerosos parentes que confluiam a desanojal-a.
Os bens eram grandes em terras e fóros. Casa antiga e solida. Alfaias do tempo de D. João V a dourarem os salões de tecto apainelado, com reposteiros brazonados. Na parte mais velha do edificio cadeiras repregadas de bronze, contadores atauxiados de prata e enxadrezados a côres, guadalmesins nas paredes, amplas mesas de pés torneados, leitos rendilhados com as armas dos Mendanhas na espalda, bufetes, jarras da India com as iniciaes de um governador de Chaul, oriundo de Mendanhas, retratos de familia a começarem em D. Gil Gutierres de Mendanha, solarengo de Barcellos. Em meio d'isto, e senhora de tudo isto, aquella Amelia de Landim, ó meu amigo Eugenio de Castilho! aquella Amelia, que sarabandeava a cana verde, o Leva agua o regadinho, e descantava umas torradas com manteiga que não ha ahi mais que se diga.
--Onde estava ella?
Perguntavam entre si as primas e os primos.
E diziam exactamente onde ella estivera e de que infectos paues se levantára com azas de ouro aquella borboleta sahida de tão feio casulo! Relatavam-se os pormenores da sua desgraçada vida, encareciam-se, como se fosse preciso, as deshonestidades... e visitavam-na.