«Não succedeu porém outro tanto com o artigo intitulado Ferreira Rangel. Ahi assaltou-nos a saudade do homem, a recordação de obsequios recebidos, a magoa da sua desventura, e não podémos, nem quizemos conter as lagrimas. Se é vergonha chorar, diga-se que é a mais viciosa vergonha inventada por homens.

«Conhecemos aquelle Francisco Ferreira Ribeiro Pinto Rangel em 1834. Ainda morava a Santo Antonio do Penedo em uma especie de ilha sem mar entre o convento de Santa Clara e o palacio dos Vieiras de Mello, então habitado pelo visconde de S. Gil de Perre, depois marquez de Terena, e agora pelo snr. visconde de Azevedo. A supposta ilha era formada, se a memoria nos não engana, pela capella de Santo Antonio e pela casa do chamado escrivão fidalgo cujo brazão recentemente collocado alvejava na frontaria.

«Ferreira Rangel tinha servido em um dos batalhões do Porto durante o cerco, e era liberal enthusiasta. Ainda trajava o uniforme militar, e apparecia nos theatros, nos passeios e em todas as reuniões. Não lhe chamavam janota porque a palavra estava por cunhar na casa da moeda da vernaculidade. Os seus principaes companheiros eram Nicolau Coquet Pinto de Queiroz que foi depois empregado da camara municipal, e talvez já não viva, e Antonio Joaquim Carneiro Homem que foi acabar a vida em Moçambique, provido no mais reles emprego da provincia em recompensa de varias feridas recebidas no cerco e de ter gasto na defeza da liberdade toda a sua fazenda. O ministro que o despachou, envergonhava-se de empregar tão mesquinhamente homem de taes serviços. Era o snr. Mendes Leal. Mas não havia outro emprego, e o pobre voluntario liberal não podia esperar. Tinha mulher e filhos, e já não tinha pão nem calçado.

«D'esses tres homens o que tinha imaginação mais viva, enthusiasmo vigoroso, e propensões litterarias era Ferreira Rangel. O seu amor á liberdade não tinha limites, e como era amor sincero, muitas vezes o impelliu a expôr a vida para salvar da furia brutal dos exaltados os proprios adversarios contra quem lutára havia pouco nas linhas do Porto. Alguns cavalheiros das provincias do norte lhe deveram n'esse tempo assignalados serviços. A generosidade do coração era n'elle igual á coragem e valentia.

«Uma noite desciamos a rua do Bomjardim onde moravamos, e ao dobrar a esquina da rua do Bolhão vimo-nos cercados por quatro scelerados que tomando-nos, apesar de imberbe, por algum temeroso capitão das hostes realistas, iam demonstrar-nos com argumentos de carvalho-cerquinho a excellencia do governo liberal, e induzir-nos a crêr que os caceteiros azues e brancos não ficavam a dever nada aos seus predecessores azues e encarnados.

«Subia a rua Ferreira Rangel e chegava ao sitio do combate; quando o rapaz de 18 annos principiava a rebater, como podia, a crua dureza d'aquelles argumentos. O mesmo foi advertir no caso que saltar ao meio do grupo, deitar por terra um dos aggressores, ferido de tremenda bofetada, e obrigar os outros a fugirem, envergonhados mas resmungando.

«Conservamos sempre relações com este excellente homem. Depois de 1839 nas ferias da universidade, iamos sempre visital-o quando passavamos no Porto. Desde 1850 nunca mais tivemos noticias d'elle. Quando agora lêmos no livro do snr. Camillo Castello Branco a commemoração da morte de Ferreira Rangel, desvalido, ignorado, e conduzido na tumba dos pobres entre quatro tochas desde a rua Chã até ao Prado, sentimos não ter estado no Porto n'esse dia para acompanhar á derradeira morada aquelle homem desditoso.

Está explicada a sensação que nos causou o artigo Ferreira Rangel. Permitta o snr. Camillo Castello Branco que entre o ruido surdo da enxada do coveiro alizando o comoro de terra sobre as taboas chuviscadas do caixão, e o silencio eterno do mundo, se levante a nossa voz a prestar á memoria do morto a homenagem da gratidão que lhe deviamos.

«D'esta vez a alçada da imprensa chegará até ao esquife do defunto, e derramará sobre elle sinceras lagrimas de saudade e de reconhecimento.»