O MYSTERIO DA CASTANHA

No estimavel livro das Cartas familiares de D. Francisco Manoel de Mello, ha uma que estimulava fortemente a minha curiosidade, sempre que a lia. É a LXXIV da centuria segunda, escripta a um amigo que passava á provincia da Beira. A carta é breve, e diz assim:

«Que vos hei de dizer? senão que vos vades embora, que estejaes pouco, que vos lembreis de mim. Não sei certo se se diz mais nas partidas: que eu, de puro estar, já não sei se como a gente se despede[17]. Só vos peço que, pois ides para terra de muitos castanheiros, me não caseis lá com alguma Maria Castanha; cujo tempo parece que tornou agora, porque aqui entre nós o fez assim.... Mas que muito, se traz o diabo aos pés, que o fizesse resvalar e cahir? salvo na conta. Ide com Deus, senhor meu, e tende em tudo tão bom successo, que vos pareça a Beira mal, e volteis logo. Nosso Senhor, etc. Torre em 15 de maio 1646.»

As palavras grifadas eram o meu enleio. Toda a minha scisma laborava em saber o nome rebuçado n'aquellas reticencias, a razão por que o sujeito trazia o diabo aos pés, e que casta de pessoa era aquella Castanha casada com o anonymo, forçosamente individuo de alta prosapia.

As pessoas de siso, que leram esta carta enigmatica, de certo não moêram sua paciencia a farejar-lhe o escandalo; eu, porém, que não posso dormir, e acordo os mortos para conversarem commigo á hora em que os vivos dormem, necessito saber por inteiro o viver das pessoas com quem estou relacionado.

E, por tanto, á custa de muito averiguar, e bisbilhotar com os contemporaneos do illustre encarcerado da Torre Velha, logrei decifrar-lhe a carta.

As reticencias encobrem o nome de Francisco Botelho, primeiro conde de S. Miguel. Por ser de S. Miguel, é que D. Francisco lhe põe o diabo aos pés.

Temos o nome do mysterioso personagem.

Saibamos agora quem era a Castanha.