IV
CARTHAGO
Cæturum, censeo Carthaginem esse delendam.
MARCUS PORTIUS CATO.
L'histoire n'est pas seulement un drame, elle est une justice.
LAMARTINE.
A philanthropia ingleza é puramente mercantil, assim como o são todas as suas virtudes, que deixam de o ser logo que se não conformam com os seus interesses.
FREIRE DE CARVALHO.
Na deslumbrante e magnificente descripção da aurora biblica do nosso globo, diz o Genesis, que o Espirito de Deus era levado sobre as aguas: Et Spiritus Dei ferebatur super aquas.
Parece que a magestade divina escolhera este elemento, na sua esplendida grandeza, para encetar a obra da creação.
Seja assim n'este modesto trabalho.
Busquemos os primeiros salões do nosso seculo nas solidões immensas do oceano. E a Carthago moderna, a nobre e fiel alliada de Portugal, á luz sinistra do execrando bombardeamento de Copenhague, em 1807, ao clarão avermelhado dos primeiros foguetes do coronel Congréve, ensaiados no acto da mais atroz e inaudita pirataria, mostrar-nos-ha o Bellérophon, o Windsor Castle, e o Belfast, tres salões em que a fé punica da Grã-Bretanha se expandiu, no seio das ondas, á sombra das suas flammulas, que são a divisa dos bastardos da raça latina.
Ha duas infancias na vida: a juvenil, e a senil. Perdoem ao homem, que já vê a sombra projectada na beira do fosso da sua ultima jazida, estes echos longinquos, que vem ferir-lhe o tympano nas vesperas da sua dissolução physica.
Convém que nos entendamos:
A Carthago na designação latina, a Karkhédôn no vocabulo grego, a Kereth-hadeshot ou em pronunciação dialectica Karth-hadtha, segundo os termos punicos e phenicios, finalmente a cidade nova pela traducção e tradição da capital carthagineza significa, para mim, na actualidade, a futura ruina da rainha dos mares, da soberba, orgulhosa e egoista Albion. E nada mais.