Deixemos passar as correntes historicas.
A analyse verdadeira, justa e consciente d'uma sã e severa critica atira ás faces dos romanos com esse ignominioso epitheto de fé punica, que só a elles cabe na antiguidade das ambições latinas, e no ardiloso espirito dos Machiaveis da Italia, transmittido até ao ultimo papa. E a mais ninguem.
Desde Romulo até Antonelli são vastas as concepções de perfidia, erguidas, a principio, no capitolio, para ficarem mais tarde, como tradição e doutrina, nos salões do vaticano.
Havia um dia em Roma, em que, ao commemorar o supplicio e resurreição de Christo, subia ás sumptuosas varandas da basilica de S. Pedro o escolhido entre os bispos, arremessava o facho do incendio, o emblema do inferno á praça publica, anathematisava os herejes, e invocava sobre elles a colera do Eterno.
Era a fé punica, na singela e curta interpretação de Scipião o Africano.
A igreja catholica, na ingenuidade d'estas crenças ferozes, segue as tradições latinas, e a innocencia virginal de Scyla, de Mario, de Nero, de Constantino, de Alexandre VI, de S. Domingos, e de todos os Simões de Monforte, e de todos os Torquemadas da religião do operario nazareno.
Olhemos para Carthago.
Vejamos o que era a fé punica.
A cidade phenicia assombrava Roma. Dobrava-se, porém, aquella diante do orgulho da cidade de Romulo. Curvava-se submissa a raça semitica na presença do povo indo-europeu. Carthago sujeitára-se á dura condição de não defender os seus direitos, nem a sua propria independencia sem authorisação de Roma. Aproveitou-se Massinissa, principe da Numidia, d'este abjecto e humilissimo pacto, para avassallar o emporio das riquezas d'Africa;--e quando a commissão, enviada pelo senado, voltava ao Lacio, depois de ter fomentado e atiçado a discordia, Catão--no seu odio implacavel, e cego pela torpe e abjecta cubiça, que o movia, terminava constantemente os seus discursos com a celebre phrase, que revelava toda a negrura d'aquella alma: «E de mais é preciso destruir Carthago»--Delenda quoque Carthago.
E quando Carthago, confiando na lealdade romana, entregava e depunha todas as suas armas e machinas de guerra, ficando indefesa, e inerme--agradecia-lh'o com a mais hypocrita e pungente das ironias, o consul Marcio Censorino, dizendo aos carthaginezes: «Louvo-vos pela vossa prompta obediencia em cumprir as ordens do senado. Sabei agora a sua ultima vontade: manda-vos sahir de Carthago porque resolveu destruil-a.»