Cumprindo a promessa do numero antecedente, dou traslado da Representação metrica, enviada a Philippe IV de Castella pelos conjurados de Evora. Onde o sentido das allusões rebuçadas me parecer menos obvio, aventurarei algumas notas explicativas que o leitor versado emendará, se as achar mal entendidas.
A EL-REI NOSSO SENHOR
Senhor, vosso Portugal,
de vossos paes estimado,
e sempre d'elles tratado
como amigo tão leal,
hoje, em miseria fatal,
está pobre e lastimoso;
e o governo rigoroso,
que tanto o tem perseguido,
lhe nega, sendo offendido,
o allivio de ser queixoso.
N'esta dos tempos mudança,
n'esta da sorte dureza,
na mantuana princeza
tinha librada a esperança.
Em fim, chegou; mas alcança
que já esperar não convém;
pois tão ruins lados tem
n'este imperio desigual,
que só póde fazer mal,
e não sabe fazer bem.
Algum que este povo unido
desejára apedrejado,
e em fim foi d'aqui lançado
a todos aborrrecido[7],
de novo agora admittido
exerce imperio violento;
que, para commum tormento,
n'este governo acontece
que o que castigo merece
agora é merecimento.
Este, agora, por fartar-se
de tyrannias, é tal
que governa Portugal
como quem só quer vingar-se;
pois não só quer odiar-se
c'os naturaes; mas tambem,
sem ser justiça, dotem
aos estrangeiros no mar,
até mandar-lhes queimar
o proprio barco em que vem[8].
De dous bachareis se informa
mui diversos na nação[9],
O Salazar e o Leitão[10]
que só differem na fórma;
só com estes se conforma:
vêde o effeito qual será;
porque um e outro está
sinalado com deshonra[11];
e quem não guarda sua honra
como a vossa guardará!
Este ministro cruel
em tudo se intromette.
Olhai que cousas promette
junto co'o hollandez Sinel!
N'estas almas de pichel
tudo póde e tudo manda.
Ai! do reino, pois tal anda
o governo portugues
que se vai de um hollandez
contra os rebeldes de Hollanda[12].
Este, pois, governo errado,
para poder conservar-se,
trata de perpetuar-se
em dous polos estribado.
Mas, ai! que está mal fundado
em tão perversa doutrina;
que onde a ambição domina
é sempre o imperio violento,
sendo aos filhos fundamento
o que aos paes foi ruina!
Porque aquelle pai que eu sei
por infamia e por traição
até quarta geração
foi julgado pela lei;
d'este um filho (ó alto rei!)
sacrilego bispo é![13]
Outro, digno de galé,
excluso já por bargante
da companhia triumphante
assiste a julgar a fé[14].
Vêde como a julgará
quem sempre sua fé quebrou;
e o que só vicios guardou
como ovelhas guardará!
Grandes simonias ha,
senhor, n'estes provimentos!
Examinai os augmentos
dos que medram com ambição,
por que eu sei bem que não são
taes os vossos pensamentos.
E, por não parar o extremo,
d'estes o mais vil ladrão
bebado, torpe e bufão
é secretario supremo!
Com que a vosso reino temo,
senhor, grandes precipicios;
pois não só vendem officios
a inuteis, fracos judeus;
mas vendem a honra de Deus
e seus santos beneficios.
Que muito! se, nos sagrados
dormitorios de Enzobregas,
provocou a acções bem cegas
ao seu rancho e aos seus prelados!
E, para os vêr profanados,
certas gaitas ordenaram,
com que todos celebraram
a bacchanal, suja prole;
e foram gaitas de folle
porque os odres não faltaram[15].
E quem isto faz, senhor,
como é possivel que possa
conservar em graça vossa
do vosso reino o melhor!
E não é damno menor
affirmar-vos sem vergonha
que é parente do Noronha
por lhe roubar o que tem,
e com malicia tambem,
que está doudo vos proponha.
Pois aquella rica prenda
n'este reino sentenciada,
por grande Caco lançada
do tribunal da fazenda!
Não me espantarei que venda
por baixo preço a valia
da patria e da monarchia,
pois, nas mudanças que faz,
falso traidor e sagaz
toda a sua esperança fia[16].
Senhor, estes inimigos
são dos melhores sujeitos
que não permittem seus peitos
conservar sabios amigos.
Crêde que em grandes perigos
vos hão de precipitar;
e sirva-vos de exemplar
tantos reinos assolados
porque foram governados
de homens de baixo solar.
É um em tudo guiado
de um forneiro mecatrefe;
de um pendolista bodefe
é o outro governado.
Serão suas razoes de estado
sempre tisnadas e feias
qual corre o sangue nas veias;
fazei d'estes expulsão,
que um é corrêa de cão,
o outro cão para corrêa.[17]
Com vossos poderes regios
estes traidores astutos
torcem vossos estatutos,
quebram nossos privilegios.
Não faltam homens egregios
para governar melhor.
Informai-vos, vós, senhor,
que não falta quem mereça,
quem fiel vos obedeça,
quem sirva com mais amor.
Assim, para commum damno,
e para proprios proveitos
convém que busquem sujeitos
para o governo tyranno;
de sorte, que n'este engano,
viveis, senhor, offendido,
e d'este reino esquecido;
pela divina verdade,
que não ha perpetuidade
no reino que é dividido.
Falta um justo conselheiro
que por commum liberdade
ante vossa magestade
vá com zelo verdadeiro,
qual o grande cavalleiro
Egas Moniz em que igual
foi valor e zelo tal,
que, vendo a patria opprimida,
arriscou a propria vida
pelo bem universal.
N'esta universal fadiga,
quem manda, fallar não deixa;
pois até do pobre a queixa
como culpa se castiga.
Pois como ha de haver quem diga
que a tyrannia insolente
inda fallar não consente!
E nossa fortuna quiz
que se sinta o que se diz;
mas ninguem diga o que sente.
Em fim de tanta crueldade
vos avisa o reino junto,
Portugal que, por defunto,
se atreve a fallar verdade.
Vossa altiva magestade
mostre agora seus poderes;
que, entre tantos pareceres,
qual póde o governo ser,
se, á conta d'uma mulher,
governam tantas mulheres!
Manoelinho o fez com approvação do senado todo junto.
Comparando o torneio e estylo d'esta poesia com as que tenho impressas dos poetas d'aquelle tempo, é muita a semelhança que corre entre ella e os poemetos de Duarte Ribeiro de Macedo, que foi melhor prosador.
[7] Diogo Soares, secretario dos negocios de estado, fazenda e justiça.
[8] Successos occorridos com embarcações francezas.
[9] Nascimento.
[10] João de Frias Salazar, desembargadar do paço, e o dr. Francisco Leitão, o Guedêlha de alcunha, de quem dá larga noticia a romance intitulado O Regicida.
[11] Dr. Leitão, era filho de uma notoria meretriz, e havia casado com outra, a celebrada Vicencia, filha de uma certa Barbara, alcaiota da rua dos Cabides.