Os cães, apud Vasconcellos, grunhem. A pag. 273: «Tu vês um cão... elle grunhe.» A pag. 277: «Não grunhes, cão!» E torna: «Quer o cão... grunhir.» Nunca se usurpou tantas vezes a linguagem ao cevado.
Se o snr. Vasconcellos estudasse portuguez pelo Methodo de Monteverde, teria aprendido nas Vozes dos animaes do snr. Pedro Diniz como vozêam cães e porcos.
Muge a vacca; berra o touro;
Grasna a rã; ruge o leão;
O gato mia; uiva o lobo;
Tambem uiva e ladra o cão.
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Chia a lebre; grasna o pato;
Ouvem-se os porcos grunhir;
Libando o succo das flôres,
Costuma a abelha zumbir, etc.
Tambem Vasconcellos, traduzindo Gœthe, descobriu no cão um caroço (pag. 285). Diz-lhe o snr. Telles que Kern significa pevide ou caroço, quand se trata de fructos; mas n'outras conjuncturas, é amago, substancia, etc. O snr. Vasconcellos, quando tirava os significados de Kern, achou caroço, e pespegou-o logo no cão; por isso o cão encaroçado grunhiu tres vezes. Podéra...
A pag. 474, escreve Vasconcellos: ouvir por um oculo. Eu esta phrase não a estranho. Mais me espantára, se elle dissesse: vêr por uma corneta acustica.
Dá-nos Vasconcellos a pag. 503 Tantalo enterrado até ao queixo na agua. Póde uma pessoa estar enterrada na agua, e estar submergida na terra. Tambem não estranho isto; mais me assombra a coragem da ignorancia, se é que não ha um fado irresistivel e tolo que nasceu comnosco, ou com nós nasceu, como diz Joaquim de Vasconcellos a pag. 339.
[BIBLIOGRAPHIA]
Escriptos humoristicos em prosa e verso do fallecido José de Sousa Bandeira, precedidos da biographia e retrato do author. Porto, 1874.—O berço da liberdade em Portugal foi embalado com as trovas politicas do redactor do Azemel e do Artilheiro. Bandeira é o patriarcha da facecia jornalistica entre nós. A sua graça era da velha escóla de José Daniel e de José Agostinho de Macedo. Não pespontava de delicadeza: ia direita aos beiços do leitor e abria-lh'os forçosamente em casquinadas de riso. Hoje em dia, o riso é mais preguiçoso, quando folheamos estas paginas do livro escripto ha 38 annos. São cinzas, e cinzas esquecidas os estadistas que José de Sousa Bandeira motejou no tumultuoso palco politico de aquelle tempo; todavia, a historia não prescindirá de consultar os Annaes da imprensa da liberdade restaurada, quando houver de assentar de vez os vultos dos grandes obreiros do governo representativo; e, entre todos os archivistas das luctas d'esses dias, José de Sousa Bandeira foi o mais independente e afouto. Custodio José Vieira, talento insigne e apreciador inflexivel dos homens e das cousas, escreveu a biographia do jornalista com quem muitas vezes pleiteou na sua juventude de publicista. É um lavor incompleto, dado que na vida de Sousa Bandeira lhe não esquecessem os lances capitaes. É incompleto, por que as 83 paginas escriptas deviam prolongar-se até completar a historia e o proseguimento da restauração dos direitos civicos em Portugal. Custodio Vieira revela-se, n'este eloquente escripto, historiador severo. No estylo, usa as concisões de D. Francisco Manoel de Mello, e o atticismo dos historiographos que melhormente exemplificaram a arte de narrar. Se elle um dia poder furtar-se aos braços da sua amada e amantissima jurisprudencia (que amores!) póde ser que a historia se preze de brindar os portuguezes com os fastos da sua emancipação.
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