No Minho, por D. Antonio da Costa. Lisboa, 1874.—Apenas publicado, divulgou-se o gracioso livro de D. Antonio da Costa, escriptor provado em ramos de variada litteratura. Os Tres mundos foi obra que affirmou os distinctos dotes revelados nos livros anteriores. Este do Minho é o repousar suave de circumspectas canceiras, que asseveram meditação, estudo, espirito reflexivo e capacidade para tentativas avessas do indolente genio portuguez. Escrever 310 paginas ácerca d'estas moutas verdejantes do Minho, sem enfastiar, é condão de quem sabe quebrar com as diversões da arte a monotonia da natureza. E, depois, jornadear por estradas reaes, pernoitar por estalagens urbanas—em que não ha vislumbre de urbanidade, nem sequer misericordia—passar uma noite em Braga, é sentir-se a mais robusta e inventiva alma encodear de uma crusta de estupidez que nos faz pensar que temos no peito uma tartaruga sôrna. Braga, a scintillante esmeralda d'esta manilha de pedras finas que D. Affonso Henriques tirou do pujante braço de Hespanha, Braga seria a querida dos forasteiros de todo o mundo, se as camas das suas hospedarias não fossem alfobres de insectos apteros com seis patas, e hemipteros com azas, segundo Cuvier. Sei que no Indostão ha hospicios em que as pulgas são pensionadas e medicadas nas suas enfermidades. Sei que os indostanicos respeitam o dogma da metempsychose, e se deixam sugar devotamente por ellas; mas nem Braga é Aurengabad, nem eu sou da raça mahratta, nem tenho razões bem assentes para desconfiar que o espirito de minha avó se compraz em me morder no hotel Real de Braga.

Não encontro memoria d'este martyrio no livro do snr. D. Antonio da Costa. Attribuo a omissão á delicadeza do martyr. Ha tormentos tão sujos que o relatal-os em gemidos é indecencia consignada no Compendio de civilidade do snr. João Felix. Se bem me lembro, Boileau cantou a pulga em magnificos alexandrinos; hoje em dia; nem á pedestre prosa se consente rolar uma lagrima sobre a cutis sevandijada por estes e outros carnivoros creados em um dos sete dias genesiacos... para satisfação e proveito do homem.

O meu amigo D. Antonio da Costa, convisinhando do snr. Manoel dos Malhos, que roncava impenetravel ás harpias do hotel, chorou copiosamente no capitulo intitulado: Uma insomnia. Quem sabe se, n'aquella noite, as luras epidermicas da casca de Manoel dos Malhos attrahiram as hordas a desenxovarem n'ellas as suas larvas e nymphas? Eu, n'aquellas estalagens, encontro sempre dous Manoeis dos Malhos, um de cada lado, e os outros bichos no meio.

Formal e substancialmente são admiraveis os capitulos d'este livro, intitulados O Bom Jesus do Monte, Um castello feudal em 1873, A mulher do Minho, e a Ultima impressão. N'estas paginas que fecham o livro reluzem os entranhados desvelos com que o snr. D. Antonio da Costa, ha tantos annos, afaga as criancinhas carecidas da segunda alma da educação. Este capitulo é um obelisco de gratidão publica e amoravel a perpetuar a memoria de D. Maria Francisca dos Santos Araujo, abastada senhora de Leça que fez do seu ouro um quinto evangelho de propaganda caritativa. «Ah, senhora!—escreve o eloquente enthusiasmo do obreiro da instrucção—devem de ser formosos os vossos momentos, quando na escóla que edificastes vos achardes rodeada das meninas que se estão educando no vosso bafo, e não menos quando sahindo d'alli festejada por ellas, ao passardes pelas ruas de Leça, chegarem ás portas todas aquellas mães com as filhinhas mais pequenas ao collo, e fordes vendo todas essas mães apontarem para vós, dizendo alvoroçadas para as crianças: É aquella!»

O livro No Minho está julgado por 1:500 leitores que o já possuem; e, todavia, annunciou-se a excellente obra nos primeiros dias de julho. Não são triviaes estes triumphos em Portugal, repetidos com as mais notaveis producções do benemerito escriptor. Aquelle grave e philosophico livro dos Tres mundos, relido com intelligente ardor e creio que já reimpresso, attesta que renasce n'este paiz o afan do estudo, e o gosto da instrucção solida. Deviamos vir a isto, depois do cataclysmo de palavrorio e marmanjarias com que uns sycambros andaram por ahi a querer derrancar a mocidade. Não póde o illustre escriptor frizar de todo a sua indole peculiar ao genero escoteiro—digamol-o assim—d'estas cousas levissimas e quasi futeis que se escrevem em jornadas de fronteiras a dentro. O modêlo, que Almeida Garrett imitou dos francezes, é um estorvo que desanima. O romance, interposto na viagem, era em 1840 um dôce engodo, e foi grande parte na prosperidade do livro. Estavamos ainda no periodo romantico. A menina dos rouxinoes devia ser contemporanea dos bardos que se inspiravam das proprias cabelleiras á Saint-Simon. Os rapazes d'aquelle cyclo acreditavam em Garrett, e andavam saturados do amor dos Espronceda e Musset.

Hoje, não. O livro do snr. D. Antonio da Costa é, a intervallos, condimentado das grandes questões do dia, da vitalidade regeneratriz que estúa no pulso de todas as forças. Se parte dos leitores o desejam mais futil, ha de haver muito quem assim o estime em dobro. Eu, de mim, achei n'estas trezentas paginas o sorriso alegre, a meditação melancolica, o rebate saudoso de perdidos contentamentos, o estimulo a considerações de porvindouros beneficios a filhos e netos—consolação unica, mas santa, que a Providencia dá aos que não esperam nada da vida presente.

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Phantasias e escriptores contemporaneos, pelo visconde de Benalcanfôr. Porto, 1874.—Ricardo Guimarães, com o camartello do folhetim, derruiu o carroção, no Porto, ha vinte annos. O carroção tinha, por aquelle tempo, dous seculos de moda. Fôra inventado na rua das Cangostas para uso de uma familia obesa, formada de quinze pessoas adiposas. Esta familia derreteu-se no estio de 1650; mas o carroção ficou.

No lapso de duzentos annos, o carroção, parado no largo da Batalha, com a lança vermelha atravessada nas sôgas dos ramalhudos bois, viu passar e desapparecer todos os vehiculos adelgaçados pelo cepilho do progresso. O carroção escancarou as goelas, e riu da americana, da victoria, do phaetont, do landeau, da caleche, do dog-cart, da tipoia, do coupé, do tilburi, do daumont, do brougham, do mail-coach, do poncy-chaise, do groom, do break. Ricardo Guimarães, fundibulario da hoste moderna, carregou a funda de estylo, remessou-a ao Golias de couro; e o gigante, arrastado pelos bois que mugiam saudosos da palha-milha que comiam á porta do theatro lyrico, dispersou os membros por Barcellos, Famalicão e regiões visinhas. O milagre não fôra obra de um homem nem de uma geração de espiritos finos. Fôra o estylo de Ricardo Guimarães—o estylo que é a dynamisação de todas as forças, desde a polvora até á dynamite, desde a alçaprema de Archimedes até á machina de Papin. Era uma delicia o escrever d'este rapaz, e outra delicia o modo como entornava no papel os brilhantes paradoxos, as hyperboles ridentes, as metaphoras originalissimas. Era meu companheiro de hotel (que hotel, ó Ricardo!) em 1855. Escrevia artigos politicos de madrugada, na calma, entre meio dia e uma hora, do seguinte feitio: tinteiro e papel no sobrado; elle adaptava-se horisontalmente ao colchão, na postura de quem espreita a profundidade de uma cisterna, descia o braço direito até ao pavimento, e escrevia lá em baixo. Assim tratava Ricardo Guimarães, de bôrco, a politica do Nacional, no soalho, como quem deita migalhas a uma pêga.

Depois, um dia, enfardelou os fraques e os vernizes, os retratos de algumas mulheres formosas e os economistas mais avançados, desdobrou as azas da sua arrojada phantasia, deu um sorriso aos seus amigos, e... adeus! D'ahi a pouco, deputado, esposo, pai. Fez-se um silencio de annos na sua voga de escriptor. Os seus camaradas, que haviam afivelado com elle a espora de cana em algaras litterarias, trajaram luto quando se convenceram que o visconde de Benalcanfôr era o epitaphio de Ricardo Guimarães.