Eil-o que resurge com as feições mais accentuadas, o sorriso menos expansivo e mais hervado de ironia, a graça mais palaciana, a satyra com oculos verdes para que a não acoimem de estouvada, e as antigas imagens de sua invenção com decote que não deixe vêr a curva da espadua.

D'esta reforma, salvou o visconde de Benalcanfôr as facetas resplandecentes do estylo, deveras portuguez na palavra, francez no boleio da phrase—ligação que é uma formosura, quando o escriptor tem a consciencia d'essa difficultosa amalgama.

Tem o visconde publicado os melhores livros que possuimos ácerca de viagens. Este das Phantasias seria aquelle que eu mais encarecesse em quilates de graça e critica, se me não visse ahi tão amigavelmente indulgenciado em onze paginas. Ponderei, gravemente, meu caro Ricardo, n'este livro o teu capitulo, intitulado elogio mutuo. Tu, com certeza, antes queres de mim uma reminiscencia da juventude, que os tardios e quasi inuteis gabos feitos ao teu assignalado talento.

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Bernardino Pinheiro. Amores d'um visionario, romance historico original do seculo XVI. 2 tom. Lisboa, 1874.—Se a linguagem das civilisações adiantadas e os pensamentos de perfectibilidade humana podessem pensar-se e exprimir-se no seculo XVI, este romance do snr. Bernardino Pinheiro corresponderia, cabalmente, á qualificação de historico. A illusão desfaz-se a cada pagina, sempre que os personagens entendem na questão do progredir social. Que Antonio de Gouvêa, o heroe do livro, depois de ouvir, na Europa litteraria e convulsa de reformas, as theorias dos adversarios do papa e do dogma, propagasse idéas e palavras novas em Portugal, é possivel; mas que a freira do Salvador, e D. Margarida de Lencastre, e a escrava liberta discreteassem tão eloquentes e progressistas ácerca dos direitos do homem, da emancipação do escravo, da liberdade do pensamento, repugna aceital-o a razão, posto que de bom animo nos affeiçoemos á vehemencia e esplendor d'essas phrases intempestivas.

Mulheres illustradas, se as houve em Portugal no seculo XVI, são umas que o snr. Pinheiro nos mostra em um dos admiraveis capitulos do seu livro. As paginas descriptivas de Uma academia feminina do seculo XVI quadrariam em livro da mais selecta historia do reinado de D. João III. Alli estão as Sigéas, que não gozam fama de pudentissimas escriptoras, se um poema erotico as não calumnía. Pois, n'esses completos moldes que o snr. Pinheiro nos deu da sciencia feminil, está o maximo, o ultimo estadio do alcance intellectual da mulher. Soror Maria, a monja que, de escrupulosa, não ousava erguer o véo a sós com o amante, revelou incapacidade para discorrer tão liberrima, na carta a Gouvêa, ácerca das regalias do coração. Escrevendo ácerca de uma visionaria, diz a freira ao seu amado: «Os espiritos convictos são logicos. O fanatismo tem as suas leis fataes—e, por vezes, posto que raras, felizes...» E acrescenta com intelligente ironia: «Que enormissimos criminosos que nós somos:—amamo-nos, e acreditamos no evangelho puro!... Quando serão no mundo livres o pensamento e o amor?!»

A freira em 1548, podia delinquir porque era mulher; mas não saberia desculpar o seu delicto com argumentos d'aquella natureza. E soror Maria, se tivesse no corpo o demonio incubo da philosophia, quando abriu a porta da cerca monastica ao amante, sahiria por ella, em vez de, colhida em flagrantes amorios, pedir misericordia á mestra de noviças. Teria feito o que fez depois, independente de luzes que lhe mostrassem a nullidade e tyrannia dos votos de reclusão, castidade e pobreza.

Esta macula é resgatada por nitidissimas paginas que manifestam o historiador avantajando-se ao romancista. O capitulo XVIII (Illustrações em Coimbra) é labor bastante a graduar um espirito culto na convivencia dos varões insignes do seculo XVI. A disposição do grupo é magnifica. Alli se admiram os luzeiros que chammejaram á volta da alma negra de João III e não vingaram esclarecel-a.

O quadro do auto de fé em que Antonio de Gouvêa é salvo da fogueira pela cohorte dos escravos, é tão vigorosamente desenhado quanto inverosimil. Os frades de S. Domingos não se deixavam embair por tretas nem sancadilhas á sua credulidade, quando queimavam herejes da laia de Gouvêa. Não obstante, esse trance, pelas commoções que produz, dispensa-se dos realces da naturalidade.

Em summa, Os amores d'um visionario é um livro que merece graduar-se entre os bons romances portugueses, tanto pelos predicamentos da imaginação, como pelo subsidio de historia que presta ás pessoas desaffectas a demorados estudos.