[POBREZA ACADEMICA]

O secretario da academia real das sciencias de Lisboa, José Bonifacio de Andrade e Silva, escreveu a monsenhor Ferreira Gordo, pedindo-lhe um donativo para ajuda de se pagar o busto do duque de Lafões, D. João Carlos de Bragança, que a mesma academia desejava collocar em uma das suas salas. O sabio monsenhor respondeu com circumspecção e graça por meio da seguinte carta, que está inedita:

«Poderá v. s.ª certificar em meu nome á academia, que eu estou disposto a concorrer com o contingente, que me couber, guardada a proporção arithmetica, para o monumento, que pretende dedicar á memoria sempre saudosa do seu illustre fundador, e que aproveitarei de bom grado todas as occasiões, em que possa dar-lhe mostras do meu reconhecimento pelo muito, de que lhe fui devedor. Mas não se achando todos os socios n'este empenho, e fallecendo á maior parte d'elles meios, para fazer donativos d'esta natureza, parece-me que a academia teria resolvido com mais prudencia, e circumspecção decretando que a despeza do dito monumento sahisse inteiramente dos seus fundos. Que póde doar sem detrimento seu um religioso, não sendo commissario da Terra Santa, prior geral dos conegos regrantes de Santo Agostinho, abbade geral do mosteiro de Alcobaça, ou ministro provincial dos menores observantes de qualquer das duas provincias de Portugal e Algarves? Que rendimento tem um professor regio de humanidades, um lente da universidade, um ministro, e qualquer outro funccionario publico, que na fallencia de bens patrimoniaes, lhe não seja indispensavel para sua mantença? Dirá alguem que a academia roga, e não manda, e isto é verdade; mas como ninguem quer o fóro de pobre, nem ser marcado com a nota de pouco officioso, esta rogativa virá a ser para a maior parte dos socios, o effeito de um rigoroso mandamento. De mais se a academia é real, se todos os seus trabalhos se dirigem a fazer prosperar, e florecer os estados de quem lhe deu este titulo, e a subsistencia, e se até agora tem gozado a singular prerogativa de ser presidida por uma personagem de sangue real, acho muito improprio, que a despeito, de tudo isto, se lhe queiram dar os attributos de uma irmandade religiosa, fazendo dependente da caridade de seus irmãos, e não do seu patrimonio, qualquer despeza extraordinaria, que emprehender. Perdôe v. s.ª como secretario a liberdade, que tomei, que como meu amigo que é, tenho certeza me desculpará, se o que acabo de escrever se encontrar com o seu parecer, que muito respeito.»

Os academicos de hoje são outra casta de gente, quanto a pelintraria. Se não fazem bustos, é porque ainda estão vivos todos os sujeitos que hão de resuscitar no marmore e no alabastro. Aquelles salões desertos hão de ser povoados de estatuas, quando as cangas de sabios que hoje lavram os baldios da sciencia, se foram a pascer nos almargens da immortalidade. Medita a geração nova no modo de os entrajar, pois que a funeral casaca destôa das arrojadas manias e sabenças de cada sujeito. Creio que deveremos apparecer, nós, os academicos, cada qual com seu caranguejo symbolico na mão operosa. O mocho, a ave de Minerva, apenas cabe de direito ao snr. João Felix Pereira, o pervigil diurno e nocturno.


[SOBRE ANSELMO]

Usam dizer algumas pessoas assalteadas por bandidos da imprensa: «Não respondo, porque o insultador é canalha.» Isto é um desacerto. Não ha canalha irrespondivel. Todo o infame que calumnía representa uma parcella da opinião publica. E essa parcella, malevola ou enganada, crê esmagar o calumniado quando o interprete de seus odios ou preconceitos tem no espinhaço a couraça repulsiva do escaravêlho, invulneravel aos bicos da penna e aos loros do látego.

Anselmo é um como isso. E, todavia, eu respondo a um grupo de sujeitos representados na imprensa por Anselmo. Separal-o individualmente, e atagantal-o, isso é que de modo nenhum. O sapo esguicha um pus fetido quando lhe verberam as pustulas do couro. Não se bate em homens d'esta laia, desde que o pelourinho e o açoute foram expungidos da lei.

Convém saber que Anselmo não escreve: assigna. Theophilo Joaquim Fernandes é o tubo intestinal por onde Anselmo estrava a alma excrementicia; ao mesmo tempo que Anselmo é a testa polida (não é tartaruga: finge) em que Joaquim escreve as suas protervias a carvão. Theophilo, o ignorante que eu abafei com a critica risonha, sem lhe impor alçada ás devassidões notorias, resfolga nas iras do outro. É a vingança negra do mais safado caracter que ainda sahiu desembolado ao curro das letras.