Quer o leitor saber onde Theophilo foi esquadrinhar este indecoroso lance da minha vida? Em um livro meu, chamado duas horas de leitura, escripto ha 20 annos. Sou eu que, em uma carta ao meu fallecido amigo José Barbosa e Silva, conto assim o caso das cabras:

«Aos meus dez annos, levantou-se uma tempestade no seio da minha familia. Uma vaga levou meu pai á sepultura; outra atirou commigo de Lisboa, minha patria, para um torrão agro e triste do norte; e a outra... Não merece chronica a outra: arrebatou-me um esperançoso patrimonio. Foi bem pregada a peça, para que eu não tivesse a impudencia de nascer, a despeito da moral juridica, filho natural de não sei que nobre. Disseram-me que uma lei da snr.ª D. Maria I me desherdava. A boa da rainha, se tivesse amado mais cedo um certo bispo, não legislaria tão cruamente para os filhos do peccado; Denominava-se a piedosa, pela mesma razão que um rei nosso, soprando a fogueira de vinte mil hebreus, se chamou o piedoso... Fui educado n'uma aldêa, onde tenho uma irmã casada com um medico, irmão de um padre, que foi meu mestre. O mestre podia ensinar-me muita cousa que me falta; mas eu era refractario á luz da gorda sciencia do meu padre. Fugia de casa para a serra, dava muitos tiros ás gallinholas e perdizes... O meu gosto era (hic, cabras) pascer o rebanho de casa por aquelles saudosos valles. Todavia, minha irmã oppunha-se a este humilde serviço. Dizia-me cousas que eu não percebia ácerca da minha dignidade, reprehendia os meus baixos instinctos, attrahia ao seu voto o marido e o padre, e cortava-me o rasteiro vôo, escondendo de mim a clavina, o polvorinho, os salpicões, a brôa, e a cabacinha da aguardente. Não obstante, eu pedia tudo de emprestimo, e ia com as ovelhas para o monte. Passava lá o dia inteiro, sentado nas espinhas d'aquelles alcantis fragosos, sempre sósinho, scismando sem saber em quê, engolfada a vista nas gargantas dos despenhadeiros.»

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A respeito de cabras, não ha mais nada nos archivos impressos, que eu deva transmittir á posteridade.

Ai! meu saudoso rebanho! Provavelmente, d'este lidar com cabras é que me ficou o sestro e coragem de aparar as marradas de cabrões, como Anselmo.

N'essa mesma carta a Barbosa e Silva, conto eu que ajudava diariamente á missa a cinco sacerdotes. O sarrafaçal deixou escapar o ensejo de dizer ao publico que eu tambem fui sacristão.

E a historia da filha do taberneiro, que me deu um fato novo e uma moeda para eu lhe casar com a filha; e vai eu pego a fugir com o fato e a moeda e deixo a rapariguinha perdida!

Desbragada porcaria!

Ó meus amigos de Villa Real, ou lá d'onde se passou o caso infando! Procurai a miseranda menina; e, se a topardes n'alguma gafaria—derradeira paragem da espiral das perdidas—trazei-a a casa d'este Anselmo para lhe agradecer o pregão que a vinga, e para lá se rehabilitar, vendo-se honesta em contacto com certo exemplo femeal de podridão d'alma e corpo.

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