O seculo dezoito teve por missão destruir.

O seculo dezenove é a transição, que liga, e une civilisações heterogeneas, é o parenthesis aberto n'estas luctas do espirito, n'esta convulsão moral, em que as sociedades actuaes trabalham para se regenerarem radicalmente, sob um differente aspecto, e aceitando novos dogmas, e diversas doutrinas.

O author d'este livro não despreza o passado. Não o injuria, não o diffama, nem o calumnia. Explica-o até, e, por vezes, justifica-o.

Mas aceita jubilosamente a corrente das idéas do seu seculo, e louva o Eterno na effusão das suas crenças.

Todavia não volta o rosto, como a mulher de Loth, para contemplar Sodoma.

Só a magestosa omnisciencia do Ser Supremo póde avaliar os entes que creou.

Ao sentar-se nos bancos das escolas superiores, no prefacio de um livro—dado a lume por um irmão d'armas, ferido, e cahido moribundo, já, na arena da discussão, pelas luctas da palavra—escreveu as seguintes linhas:

«Pergunta-se—se os gozos, se os prazezes pertencem unicamente a um pequeno numero de homens?—se a maioria, se as classes proletarias, se os Spartacus da civilisação moderna teem de escolher entre o passamento ignominioso nas gemonias do seculo dezenove, ou nas barricadas, nascidas do desespero, que a miseria e o ardor do martyrio obrigam a levantar? Pergunta-se—se o monopolio, se a concorrencia, são os dogmas injustos e tyrannicos, que hão de destruir as massas, como o carro do idolo Jagrenat, entre os indios, esmaga o craneo dos brahmanes, ou se a associação, esse credo dos assalariados das industrias, que os economistas victoriam—póde acabar com o pauperismo, e obstar á ignorancia dos povos, palladio deshumano a que os ambiciosos se seguram?»

Ainda hoje o author d'estas linhas formúla as mesmas perguntas, com a mesma severidade, e aceita a responsabilidade d'ellas na tranquillidade constante, e inalteravel do seu espirito.

A quem o accusar de leviano, de voluvel, e de imaginoso, no seio d'este hediondo tropel de ambições, que renegam, e apostasiam a cada hora—redemoinhando, revoltas, em torno do poder, seja qual fôr a sua origem ou procedencia—responde o author d'este livro com o sorriso do desprezo, e com a consciencia segura de que não sabe, não póde, nem quer deslizar nunca da lei augusta e sacrosanta do dever.