—A dita mãi? Pois até logo. Confio em ti.
*
* *
Reduz-se a poucas linhas tudo que o sujeito me disse. A baroneza nascera em uma aldeia, visinha do Porto, á beira-mar, chamada Nevogilde. Seu pai era official-calafate; sua mãi era filha de um agricultor remediado. Os paes amaram-se, e propagaram extra-matrimonium, como diz o snr. professor e historiador Viale, quando dá noticia dos filhos bastardos dos reis. O artista safou-se para o Brazil. A menina ficou com sua mãi, que a teve comsigo até aos quatro annos, vestindo-a e alimentando-a com aceio e abundancia, em quanto lhe durou o producto de uns grossos cordões de ouro, que herdára d'uma parenta. Seus paes expulsaram-na de casa, e obrigaram-na a esconder-se com o escandalo da filha em outra aldeia proxima de Leça.
Quando se lhe exhauriram os recursos, Anna de Jesus foi servir para o Porto, deixando Amelia aos cuidados de uma gente pobre, a quem entregava mensalmente os seus salarios; porém, como não bastassem á alimentação da filha, resolveu entregal-a aos parentes do pai, que eram proprietarios em Mathosinhos.
Isto dizia a baroneza que lh'o referira o marido; mas não sabia contar como a levaram de Leça para o Pará, quando tinha seis annos. Lembrava-se de ter sido apertada nos braços de um homem, que fôra a bordo, e lhe chamára filha; que esse homem a levára para um collegio allemão, d'onde nunca mais sahira, senão aos dezoito annos para casar com um negociante rico, pardo e velho, que, ao depois, se fez barão.
Acrescentava que via seu pai no dia 1 de cada mez e que nunca lhe perguntára por sua mãi. E, por lh'o referir o marido, soubera que seu pai a não levava a casa, porque era marido de uma riquissima mulata, velha e doente, de quem esperava herdar tudo, a não intervir entre elles algum caso que irritasse o genio ferocissimo da esposa. Mais dizia a baroneza que a mulata acabou os seus dias antes de acabar a paciencia do marido, e o instituira herdeiro; mas, como lhe tinha empeçonhado o sangue, pouco lhe sobrevivera o viuvo. D'onde resultou ficar Amelia opulenta herdeira, sob a tutela do paraense que a fez sua mulher. Concluiu, finalmente, a baroneza, mostrando ao meu amigo de Braga dous numeros do Periodico dos Pobres, do Porto, de agosto de 1845, os quaes ella encontrára nas gavetas de seu pai, e d'onde inferira o pouco que sabia do seu nascimento, e se lhe afervorára o filial desejo de procurar sua mãi, e afortunar-lhe os ultimos annos, se ella, por ventura de ambas, existisse.
Mostrou-me o meu amigo os dous numeros do Periodico dos Pobres, que diziam assim:
«MENINA PERDIDA.—No dia 31 de julho pelas 8 horas da noite appareceu batendo a uma porta na rua de Sant'Anna, freguesia de Mathosinhos, uma linda menina, de idade de 4 annos, branca, bem nutrida, cabello louro liso, com uma trança de perto de um palmo, olhos grandes azues, vestido curto de cassa riscada de vermelho, guarnecido de trancelim; calça de paninho branco com dous entremeios de renda; saia de paninho, e outra de baeta de algodão; collete de atacador de linho; chapéo de papelão coberto de sêda verde; sapatos de duraque cinzento acoturnados com botões ao lado, meia comprida de linha, ligas de fitas de nastro cosidas nas meias;—diz chamar-se Amelia, e que a mãi se chamava Anninhas, a qual vivia com um snr. Antonio. Esta criança foi vista ás 6 horas da tarde na estrada de Mathosinhos na companhia d'uma mulher de mantilha e vestida de preto, e um individuo de pouca idade vestido de calça e jaqueta azul e boné.
«Estes individuos haviam convidado uma mulher para levar a criança ao collo até Mathosinhos; como elles fossem ficando muito para traz, dando a entender desejarem livrar-se da criança, a mulher desconfiou d'alguma cilada, e os obrigou a tomarem conta da criança. Convidaram então um rapaz a quem prometteram 50 reis, o qual a levou ao collo, até que, vendo-se de repente abandonado dos ditos individuos, a deixou no lugar indicado e fugiu. A criança diz que a sua casa é perto do rio; que continuadamente via barcos; que ia aos banhos com a mãi; que fugia para a ponte do rio; e que o snr. Antonio ralhava; que brincava com outra menina que morava no andar de baixo, chamada Julia, a qual tinha bonecos para brincar, etc. Suppõe-se que tinha sido furtada a seus paes, ou por elles abandonada, e por isso se publica este facto para conhecimento de quem pertencer; a criança está em poder do actual administrador do concelho de Bouças em Mathosinhos.»
Até aqui o numero de 3 de agosto. Segue o numero de 6: