«No dia immediato áquelle em que a menina foi encontrada, achou-se atraz da parede n'um campo uma trouxa de roupa de criança, e uma carta; foi tudo apresentado ao administrador do concelho, que pelo seu conteúdo descobriu a historia d'aquelle acontecimento, os nomes dos paes e parentes, etc. Era remettida pela mãi aos parentes do pai, por este se achar ausente no Brazil, e pela falta de meios que ella tem para se sustentar, acrescendo achar-se enferma. Parece que os parentes a não quizeram receber, e que o rapaz que a conduzia, voltando ao lugar da estrada de Mathosinhos d'onde havia deixado os individuos que lh'a haviam entregado, não os encontrou, e, temendo comprometter-se, a lançou n'um campo com a trouxa e fugiu.
«O administrador do concelho obrigou a familia do pai, residente em Leça, a tomar conta d'ella, o que teve lugar no dia 3 do corrente á noite, em quanto se não descobre onde pára a mãi para se verificar até que ponto sejam verdadeiros os factos de que se faz menção n'aquella carta. Varias pessoas teem querido tomar conta da menina; porém isto não tem podido ter lugar em vista do que fica exposto, e porque os parentes do pai estão em circumstancias de podêl-a sustentar.
«Consta ultimamente que a mãi fôra para Braga, chama-se Anna de Jesus Lima, tem sido criada de servir em algumas casas d'esta cidade.»
Na margem do jornal, onde está escripto: «diz chamar-se Amelia, e que a mãi se chamava Anninhas, a qual vivia com um snr. Antonio»—o pai da baroneza, sublinhando o nome appellativo Antonio, escrevera umas palavras que estavam cancelladas e inintelligiveis. O mesmo succedia mais abaixo, no ponto em que se diz: «que fugia para a ponte do rio, e que o snr. Antonio ralhava.» Parece que este «Antonio», commentado á margem, explicava o silencio do marido da mulata a respeito da mãi de Amelia. Eu não sei nada positivo a tal respeito, nem formei ainda opinião com que possa alumiar a vereda de ulteriores pesquizas.
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O que sei é que no recolhimento da Tamanca existia, desde 1855, Anna de Jesus, como criada de uma velha fidalga que para alli entrára em 1834, obrigada pela moral que a condemnára a expiar na clausura uns amores de gran vilta para seus avós. Sei mais que Anna de Jesus sahiu do convento sem verdadeiramente saber a razão porque sahia, pois lhe disseram que ia tratar com os seus parentes a restituição da legitima que lhe haviam extorquido. Que foi recebida no quarto da baroneza para quem olhou com respeitoso assombro vendo-a coberta de velludo e pelliças de varios feitios. E que, ao vêr-se abraçada por aquella senhora, rodeada de pretas, e lhe ouvira pronunciar a palavra mãi, perdera os sentidos, e os recobrára, dizendo extravagancias. Finalmente, como a felicidade não faz endoudecer ninguem—para se não parecer com a desgraça—Anna de Jesus, remoçada, alegre até ás lagrimas, e a cuidar sempre que a sua vida era um sonho, foi para o Pará com sua filha, tão angelica, tão santa que lhe perdoou o desamparal-a do seu amor de mãi, por onde lhe adveio o acaso mais amparador da riqueza, que somma 1:000 contos, 500 da mulata do pai, e 500 do marido mulato.
E mais nada.
[O HEROE DA ILHA TERCEIRA]
Cypriano, Ciprião ou Scipião. O leitor conhece o valente governador da ilha Terceira, o portuguez intransigente com Castella, o partidario inflexivel de D. Antonio, prior do Crato, que reinou uma hora em Santarem, outra hora em Setubal, a derradeira hora entre a plebe de Lisboa. Onde elle reinou deveras foi no coração e na consciencia dos seus raros amigos.