Os historiadores portuguezes chamam Cypriano ao heroe dos Açores; os francezes chamam-lhe Scipião, nobilitando-o, por analogia do nome e dos feitos, com o general romano. Nas Provas da Historia genealogica da casa real leio Ciprião. Elle mesmo a si se chamava Scipião, para não desfazer no glorioso nome que Henrique IV lhe dava, e Philippe II tambem, como ironia ou como lisonja[10].

Procedia de estirpe illustre, não tanto como diz uma neta de seu irmão Sebastião Gomes de Figueiredo. Esta neta é mad. Gillot de Sainctonge, que, em 1696, publicou a Histoire secrete de Dom Antoine Roy de Portugal, tirée des memoires de Dom Gomes Vasconcellos de Figueiredo. Engrandece a poetiza franceza a prosapia de sua mãi com a costumada ignorancia dos francezes quando entendem comnosco. Diz que Jean, fils de Pierre, le Justicier, roy de Portugal, épousa Marie fille de Martin Alfonse Tello, & d'Aldonze de Vasconcellos sœur de la reine Eleonor, femme de Ferdinand.

Que mixtiforio ahi vai!

Se Aldonsa (ou Dulce) de Vasconcellos podesse ser irmã de Leonor Telles, nem assim Scipião de Figueiredo procederia, por Vasconcellos, d'essa linhagem.

O pai de Scipião era de Alcochete. Chamou-se Sebastião Gomes de Figueiredo: casou com D. Antonia Fernandes de Vasconcellos, filha do bispo de Lamego, D. Fernando de Menezes, que morreu arcebispo de Lisboa, e dotou a filha com o prazo de Velloso, doação riquissima em direitos reaes.

Teve cinco filhos o genro do bispo. O primogenito, Duardos de Figueiredo, era representado em 1716 por Nicolau de Tovar e Vasconcellos, sargento-mór de batalha. O segundo, Scipião, doutorou-se em direito canonico imperial, e foi mandado governar a ilha Terceira, não por D. Antonio, como diz o historiador Rebello da Silva[11], mas por D. Sebastião, como diz o proprio prior do Crato na carta latina ao papa Gregorio XIII, em 1583. Teve um filho illegitimo, que se chamou Constantino. O prior do Crato inscreve-o no rol dos amigos que o seguiram no desterro. Ignoro o destino do filho de Scipião. Os outros irmãos do governador da Terceira chamaram-se Ruy, que ficou no reino bem aconchavado com os Philippes; D. Brites, que casou com um Ribeiro Soares; e Sebastião, de quem darei ampla noticia, avô de mad. de Sainctonge, ou Sainct'Onge, como se escreve modernamente.

A porção mais estafadora d'este escripto conclue aqui.

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Quando chegou á Terceira a noticia da acclamação do prior do Crato, Scipião proclamou-o rei, sem lhe discutir a illegitimidade.

Era portuguez D. Antonio? Era. Logo era legitimo como D. João I, o filho de Thereza Lourenço.