Rei castelhano é que elle não queria. Morrer na defeza da sepultura não pisada pelo sapato ferrado do hespanhol—cahir em terra ensanguentada, mas portugueza—valia tanto como um triumpho para o faccionario do filho da Pelicana.

A onça de Castella afrontára o leão na sua caverna. Elle surgiu fóra, e espedaçou-a. A ilha Terceira era inexpugnavel com tal caudilho na vanguarda de alguns bravos fanatisados pelo heroismo de seu chefe, e talvez atemorisados pelo terror das suas cruezas com os partidarios de Hespanha.

Philippe II, em outubro de 1581, mezes depois que D. Pedro Valdez voltára derrotado dos Açores, tentou pela segunda vez a fidelidade de Scipião de Figueiredo, enviando de Lisboa á ilha Terceira Gaspar Homem com uma carta de seu proprio punho. Na brandura das insidiosas expressões, reçumbra o aviltamento a que descia o parricida castelhano para haver á mão o unico baluarte de D. Antonio. Calcule-se com que rancoroso disfarce Philippe II não offereceria perdão e mercês ao indomito governador, que apenas lhe deixára vivos cincoenta soldados, e nem um só dos officiaes aguerridos como D. Diogo Valdez e D. Luiz de Baçan.

Dizia assim a carta de Philippe[12]:

Doutor Scipião de Figueiredo, eu el-rei vos envio saudar. Não podendo deixar de crêr de vós que cumprireis com a obrigação que tendes a meu serviço, e ao bem d'essa ilha, e ao que particularmente vos toca, me parece encommendar-vos isto mesmo que de vós confio, que fazendo-vos assim como é de crêr, não sómente vos perdôo as culpas passadas, mas que folgarei de vos fazer mercê quanto serviço que de vós n'isto espero, para que se escusem os grandes damnos d'essa ilha, e dos moradores d'ella, e seu povo; indo sobre ella o apercebimento que tenho mandado fazer de gente, navios e munições, como tudo largamente vos dirá quem vos esta minha carta dará.—Escripta em Lisboa a 14 de outubro de 1581.

O governador respondeu com alguma intermissão de tempo:

Vi a carta que V. M. me mandou por Gaspar Homem, na qual me dizeis que não podeis deixar de crêr de mim que cumprirei com a obrigação que tenho a vosso serviço, ao bem d'esta ilha, e ao que particularmente me toca. Prouvera a Deus que tivera V. M. lembrança da em que estaes aos reis de Portugal, e principalmente ao serenissimo infante D. Luiz, que com seus vassallos e pessoa sempre em guerras ajudou ao imperador vosso pai; porque nem as fizereis contra o reino levantado com el-rei D. Antonio seu filho, offendendo tanto a Deus Nosso Senhor nos estragos de honras, vidas e fazendas, que causastes no meu, e nem os portuguezes verdadeiros seus vassallos deixariamos de vos servir como a rei christão, e a quem sempre amou a nação portugueza, mas como V. M. se esqueceu de tão devida razão, e da do sangue pelo muito parentesco que tendes com os reis de Portugal, nem a V. M. lhe cabe querer que eu o sirva, como vassallo, nem a mim convém obedecer como subdito. Esta ilha, e moradores d'ella são de el-rei D. Antonio a quem juraram por seu rei e natural senhor, assim pela successão do reino lhe pertencer, e o povo d'ella o ter eleito, como por a cidade, e camara de Lisboa isso escrever. As razões e justiça que para isso havia não posso eu crêr que V. M. não as tenha muitas vezes passadas pela memoria; e ainda que outras não houvera mais que a eleição do povo que n'este reino por muitos actos tem direito de nomear rei (faltando descendentes adquiridos) bastára entrar V. M. n'elle com mão armada, estando em litigio, para ainda que tivereis muita justiça perderdes todo o vosso direito; mas em Deus confio que tudo ha de tornar ao estado, que nem V. M. por occupar o alheio perca sua alma, nem o que está por ora usurpado deixe de vir ao poder do seu dono. Não me tenha V. M. por atrevido, mas julgue-me por desinteressado; e prouvera a Deus que os reis tiveram homens livres, e pouco ambiciosos em seus conselhos; porque nem el-rei D. Antonio chegára aos termos que o pozeram tamanhas traições, nem V. M. a perigo de perder o seu, e pôr em risco toda a christandade. Coitado d'aquelle que ha de dar conta no final juizo das honras, mortes, fazendas de tantos, da liberdade, e gosto da vida; porque para quem se perdeu não haverá arrependimento que baste em satisfação, por se lhe acabar o tempo. Se V. M. bem cuidar na hora da morte que vos espera, e quantos males n'ella se vos hão de representar, e as penas que, pelo que tendes em Portugal feito eternamente haveis de ter, e justamente haveis de padecer, lembrando-vos quão perto estaes de se vos acabar tudo, ah! como dareis uma volta tão grande ao passado porque tudo se vos ha então de ser presente! Quanto melhor vos fôra estar em vossos reinos pacifico, vossos vassallos quietos, amado de todos os reis christãos, e servido de todos os seus, que com o que tendes feito em Portugal! não sómente os christãos, mas todas as nações infieis vos terão intrinseco odio. Cuidai quantos innocentes matastes com o vosso exercito: cuidai nas honras das viuvas, e donzellas roubadas, e nos gemidos que ante a divina justiça estão pedindo vingança de vós. Lembre-vos quantas casadas ao adulterio forçadas são apostatadas! os templos de Deus que profanaram, as religiosas que deshonraram, a servidão em que pozestes os moradores de Portugal, e finalmente tudo o que n'elle causastes que Deus tem tomado á sua conta, e toma-vol-a com rigorosa justiça; como por um reino que mais que todos do mundo nobilitou dando-lhe as suas sagradas chagas, com que nos redimiu, por armas, que foi signal e penhor de nunca o desamparar. As cousas que padecem os moradores d'esse affligido reino, bastavam para vos desenganar, que os que estão fóra d'esse pesado jugo quereriam antes morrer livres, que em paz sujeitos. Nem eu darei aos moradores d'esta ilha outro conselho, porque não perca minha alma, nem minha honra, que trocarei quantas vidas tivera, e pudera possuir por morrer leal a meu rei que jurei, porque um morrer bem é viver perpetuamente; d'aqui me vem ter mais conta com perseverar até o fim da vida n'esta lealdade, que temer os vossos apercebimentos de gente, navios, e munições com que V. M. na sua me ameaça; porque confiando em Deus que peleja por nós, para os navios está o mar, e portos d'esta ilha apparelhados, para as munições as fortalezas e trincheiras e muitos poços para metter n'elles toda gente que nos vier buscar, a quem se não perdoará, pelos males que resultam de perdões. Não me ponha V. M. culpa, por que jurei a D. Antonio por meu rei e senhor, e de defender esta corôa; que tambem fizera o mesmo por vós se vos tivera jurado (posto que não com tanto gosto) porque basta ser rei portuguez: e, se a desventura me chegasse a estado que ficasse com vida sujeito, e, por fazer o que devo, me mandassem matar, perdendo a vida pelo senhor rei D. Antonio, então a ganhava, e tambem não perderia a memoria de minha lealdade, nem se perderia a fama da vossa crueza, e sem justiça. Eu não sirvo a el-rei D. Antonio por interesse (posto que d'elle se podiam esperar maiores mercês que de nenhum outro rei) mas sirvo com a pureza de minha obrigação de que resulta não me moverem mercês promettidas, que foi o laço em que cahiu Portugal; porque fóra do que devo nenhuma cousa me poderá mover a troco de vender a honra, e lealdade que não tem preço nem ha nenhum que eu tanto estime; lição que a muitos fidalgos esqueceu. Nosso Senhor leve a V. M. para o seu reino e restitua o de Portugal ao seu amado rei o snr. D. Antonio como os verdadeiros e leaes portuguezes desejamos.

D'esta muito nobre, e sempre leal cidade de Angra, ilha Terceira de Jesus Christo.

SCIPIÃO DE FIGUEIREDO DE VASCONCELLOS,
governador da ilha dos Açores.

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