Este lance de patriotismo não impediu que a fidelidade de Scipião fosse suspeita a D. Antonio, por insinuações de perfidos, se é bem provada a seguinte pagina de Rebello da Silva:

«Os detractores não descançavam, porém, e a fim de offuscarem o animo do prior reproduziam as accusações, asseverando que Figueiredo principiava a vacillar, pintando-o inclinado aos jesuitas, contrafeito na lealdade, e disposto a restituir a liberdade aos presos politicos. Concluiam, por fim, que o corregedor se entendia secretamente com os castelhanos. D. Antonio, se não deu inteiro credito a estas vozes, tambem não cortou, como devia, os enredos pela raiz, e chamando Cypriano de Figueiredo para seu lado, feriu nos brios e no conceito o homem que acabava de lhe conservar a Terceira. Desconfiado e voluvel, facil em esquecer os serviços, mas lembrado e resentido dos aggravos, justificou mesmo na desgraça em varios lances a nota de ingrato. Na pequena côrte de proscriptos, que o rodeava, só Diogo Botelho, alma de todos os conselhos, viveu exceptuado da desattenção com que feriu os portuguezes, que tinham sacrificado patria, bens e posição para o seguir. Faltou-lhe sempre a magnanimidade, realce do infortunio, porque tanto engrandece na prosperidade, como serve de quilate e de timbre na desgraça aos caracteres heroicos.

«Abrindo os ouvidos ás queixas contra Figueiredo, e preferindo para o substituir no governo da ilha a Miguel da Silva, nomeado conde de Torres-Vedras, o pretensor, punido pela má escolha, praticou uma acção injusta, e commetteu um grande erro. As honras vãs, de que assim mesmo se não mostrou prodigo com Cypriano de Figueiredo, na idéa de lhe adoçar o que havia de cruel e de iniquo n'este golpe, não apagaram de certo no peito do honrado cavalleiro a nodoa de se vêr immolado á calumnia. Offendido na lealdade, e quasi injuriado publicamente pelo triumpho concedido aos adversarios, Figueiredo calou a affronta, e veio encerrar junto do principe, no desterro, a carreira, que abrira, abraçando uma causa vencida, e rejeitando as promessas de Philippe II, insinuadas pelo principe de Eboly[13]

Descreio que D. Antonio escutasse as intrigas, e afrouxasse na confiança do seu validissimo amigo. Na carta latina que escreveu a Gregorio XIII, em 1583, avalia d'esta maneira o defensor da Terceira: «... entre outros, está o egregio doutor em direito canonico imperial, integerrimo governador, em nome de el-rei D. Sebastião nas ilhas Terceiras; do qual, incorrupto a promessas e lisonjas para que entregasse as praças que lhe haviam sido confiadas, confiscou-lhe os bens como costuma, apossou-se d'elles; e, sem embargo este constantissimo fidalgo manteve o povo em sua fé e promessa e deveres, foi quem primeiro, n'estes nossos tempos, domou os castelhanos com gloriosa victoria, e grangeou nome de capitão e fidelissimo governador e tal soldado se mostrou aos inimigos que muito é reluzam n'elle a um tempo esplendor de letras e grandeza militar.

Acresce que Scipião de Figueiredo é, juntamente com Diogo Botelho, testamenteiro de D. Antonio, e mais que todos os seus amigos, recommendado á gratidão de seus filhos. O testemunho de Sebastião de Figueiredo, irmão do valente defensor da Terceira, insurge-se tambem contra a calumnia, nas memorias que sua neta, mad. de Sainctonge publicou: Dom Antoine qui croioit qu'il ne donneroit pas peu d'affaire a Philippe, s'il conservait ses Isles, ne pouvait se lasser de louer le courage de Scipion; il avait une si forte passion de le voir, qu'il eut l'imprudence de lui écrire de le venir trouver, pour se rejuir avec lui de sa victoire, et de laisser le soin de son gouvernement à Manuel da Silva qu'il lui envoyoit qui etoit une personne de confiance. Voila ce qui fit croire à ceux qui ne jugent des choses que par les aparances que Dom Antoine se défioit de lui...[14].

Se é aceitavel o testemunho dos contemporaneos, alliviemos a memoria do prior do Crato d'esse imputado crime de ingratidão ao homem que deixou, na carta a Philippe, o mais energico testemunho de patriotismo, n'aquella vergonhosa conjunctura em que tantissimos fidalgos chatinaram a consciencia.

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Scipião de Figueiredo assistiu, em 1595, ao trespasse do quasi mendigo D. Antonio. Pobremente viviam todos os amigos que o rodeavam. A pensão que Henrique IV lhe esmolava deprehende-se qual seria da mobilia do prior do Crato, inventariada por sua morte[15]. Essa mesquinha pensão continuou-a o rei em beneficio dos filhos e amigos de D. Antonio, consoante a carta, enviada de Lião, a Scipião de Figueiredo:

Seigneur Scipion de Figueredo, j'ay porté le regret que je devois de la mort de mon feu cousin le roi de Portugal, pour la perte que j'ay faite d'un bon amy, et je seray toûjours aussi prompt á faire paraitre á l'endroit de ses serviteurs, la bonne volonté que je lui portois; comme j'ay de déplaisir et de compassion de vôtre infortune; j'ay apris par vos lettres, quil vous a fait executeur de son testament, avec le sieur de Diogo Botheillo, il ne pouvoit faire un meilleur choix, car je m'asseure que vous vous acquiterez fidellement de ses dernieres volontez.

J'écris á ceux de mon conseil des finances, de payer ce qui étoit du de la pension du dit roy, jusqu'à la fin de la presente année, dans lequel tems étant sur les lieux, je réglerai et ordenneray ce que je pourray faire à l'avenir pour mon cousin Dom Christolphe son flls, et auray à plaisir de gratifier tous ceux de sa famille en ce qui me sera possible, et vous en particulier, aux occasions qui se presenteront, priant Dieu, seigneur Scipion de Figueredo, qu'il vous ait en sa sainte et digne garde.