Ecrit á Lion, le vingt de septembre, mil cinq cent quatre vingt quinze.

Transpira d'esta carta a bonissima alma de Henrique IV a favor de um principe que tragava as penurias a que não foi estranho o filho de Joanna d'Albret. Aquelle tempo ainda elle não era marido de Maria de Medicis, que lhe permittiu contar com o almoço seguro e um gibão sem remendos. Quem diria que tão nobre e querida alma se iria a Deus, quando o corpo se estorcia debaixo do punhal de Ravaillac! Menos infeliz e menos amado, morrêra tranquillamente o proscripto Antonio, graças a Henrique III que o defendeu do sicario duque de Mercœur, bisavô da rainha portugueza Maria Francisca Isabel de Saboya[16].

Scipião despendeu com D. Antonio e seus filhos os bens que adquirira na governação da ilha Terceira.

Falla-se de um brilhante que o prior do Crato empenhára por quarenta mil libras, na mão de mr. du Harley Sancy, um dos mais pecuniosos fidalgos de Paris, de quem depois houve mais sessenta mil libras, por trespasse completo da joia (proximamente 18:000$000—o producto total do brilhante). A pedra preciosa era do neto d'el-rei D. Manoel ou de Scipião? Mad. de Sainctonge refere a passagem de modo que nos persuade ser do amigo de D. Antonio: Scipion Vasconcelles de Figueredo avoit déjà vendu pour lui (D. Antonio) tout ce qu'il avoit apporté de son gouvernement, et avoit engagé un diamant d'un prix inestimable pour quarente mille livres, à Monsieur de Sensy qui étoit si honnête-homme qu'il lui donna encore vingt-mille écus voyant qu'il n'etoit pas en état de le retirer. Parece dizer que o proprietario do diamante era Scipião de Figueiredo[17]. Esta pedra, considerada quanto aos quilates, o oitavo diamante conhecido, foi depois empenhada por du Sancy, em Metz. Um hebreu d'aquella cidade emprestou dinheiro para pagar aos suissos de Henrique III, revolucionados por falta de pagamento. O proprio du Sancy cahiu em apuros, por 1605, e vendeu a pedra a Sully que a comprou por 150:000 escudos em nome do rei. Não sei que mãos percorreu o diamante. Em 1870 foi vendido em Calcutta, por ordem da princeza Demidoff, originaria da Russia, e aparentada com a familia Bonaparte[18].

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Em 1586, tinha Scipião comsigo em Paris um irmão de vinte e cinco annos, lá conhecido por D. Gomes de Vasconcellos, que por alli se andava estadeando a sua pobreza e inutilidade. Pediu Scipião a Catharina de Medicis que lhe empregasse o irmão no exercito do marechal de Brissac. A rainha-mãi escreveu a favor de Sebastião de Gomes a affectuosa carta que sua neta publica a pag. 162 da Histoire secrete, etc.

Poucos mais vestigios restam de Scipião de Figueiredo até 1601. N'este anno Maria de Medicis recommenda-o encarecidamente ao gran-duque de Toscana, por carta escripta de Lion, em 10 de janeiro. Ahi lhe expõe que o seu protegido vai a Italia pour aucunes siennes affaires. Não é possivel rastrear os negocios particulares de Scipião em Italia. O pretendente era já morto desde 26 de agosto de 1595. Póde ser que o testamenteiro de D. Antonio ainda conspirasse a favor dos filhos.

Não sei se se demorou muito em Italia. Sabe-se que, na volta, foi morar nos arrabaldes de Paris em uma aldeia chamada Les Fontaines, perto de Lagny, d'onde ia a miudo visitar o filho de seu defunto amo, D. Christovam de Portugal, que vivia em Paris bastante descuidado dos seus interesses e honra[19]. Poucos annos viveu em Les Fontaines soccorrendo os portuguezes expatriados com a pensão que lhe dava o rei. Ahi morreu, depois de 1606, e foi sepultado no proximo mosteiro dos Agostinhos. O rei continuou a dar a pensão aos commensaes de Scipião, reservando em beneficio de D. Gomes seiscentas libras annuaes, uns 110$000 reis pouco mais ou menos.

Ora este D. Gomes tem sua historia, longa e arrastada, porque morreu em idade de noventa e sete annos, reinando já em Portugal D. João IV.

Se o leitor póde esforçar a sua paciencia, e dar-me relevante prova de que os estudos serios, grossos e profundos lhe são agradaveis, leia até ao fim o que eu lhe vou contar, muito pela rama, do irmão do heroe da Terceira.