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D. Gomes, soldado valoroso e aventureiro, que expunha a vida na perspectiva da morte ou da fortuna, sahiu de uma das suas batalhas com uma perna quebrada e o rosto desfigurado por um gilvaz que lhe esbrucinára parte do nariz.
Quando se levantou curado das feridas, e se viu no espelho, trespassou-se-lhe a alma de tamanha paixão que esteve nos colmilhos da morte. Il pensa mourir de chagrin de se voir si different de ce qu'il avoit été—diz sua neta mad. de Sainctonge.
A fealdade pungia-o tanto quanto elle era caroavel de damas, galanteador bemquisto, e famoso no bom successo das suas empresas amorosas.
Como allivio de seus males, alistou-se de novo na milicia de Luiz XIII. Affrontou a morte com desesperado menospreço de si mesmo, e vingou apenas ajuntar novas cicatrizes á gloria das outras, que o não resguardaram da pobreza nos tristes dias de nonagenario.
Voltando a Paris, foi acolhido por D. Christovão, filho do defunto prior do Crato, que o estimava em extremo.
Quando orçava pelos sessenta annos, Sebastião Gomes de Figueiredo, que tinha a maior no coração o que lhe minguava no nariz—orgão importante da cara humana, segundo a opinião do diccionarista Couto Guerreiro—apaixonou-se por uma menina parisiense, formosa, illustre e pobre, com a sobrecarga de espirituosa.
E casaram—o que foi mau; e tiveram tres filhos—que foi peor.
Dous morreram; a mãi tambem morreu aos dezoito annos de casada, deixando-lhe uma galante menina de quartorze annos, conhecida na boa sociedade por mademoiselle de Vasconcellos.
D. Gomes era pobre, e o futuro da filha torturava-lhe o coração paternal. A estas penas acresceu a da morte do seu amigo D. Christovão, em 1638, em cuja parcimoniosa mesa elle tinha certo o talher.