Porém, n'esta noite da desgraça alvorejou uma aurora de esperança.
Em 1640 foi acclamado rei portuguez. Sebastião Gomes, com bom fundamento, imaginou-se chamado á patria e reintegrado nos bens que Philippe II lhe confiscára.
Assim que chegou a Paris D. Francisco de Mello, primeiro embaixador de D. João IV, Gomes de Vasconcellos apresentou-se-lhe. O embaixador abraçou o ancião, dizendo que não esperava encontrar n'este mundo um irmão do heroico Scipião de Figueiredo, cujo nome ainda soava em Portugal gloriosamente. Perguntou-lhe o velho se seria licito esperar que el-rei de Portugal lhe permittisse voltar á patria e apossar-se dos seus bens. Respondeu D. Francisco de Mello que era illicito duvidar da justiça e probidade d'el-rei. Grandes jubilos no seio d'aquella pobre familia!
Escreveu o embaixador para o reino aos seus amigos mais conjuntos do monarcha. Todos, á uma, lhe responderam que o rei faria justiça.
Pactuaram logo sahirem juntos para Portugal; mas como D. Francisco tivesse um filho enfermo, demorou-se; e, quando o filho convalescia, teve de seguir o rei de França a Compiegne, e deixou o filho entregue aos cuidados de Gomes de Vasconcellos.
O rapaz tinha vinte e dous annos, era até certo ponto aparvalhado, fôra educado portuguezmente, não tinha a minima pratica de sala, e não sabia palavra da lingua franceza.
Com o fim de o recrear nos desalentos da convalecença, Gomes de Figueiredo levou-lhe a casa a filha, que era bella, e mais algumas amigas de mademoiselle Vasconcellos—moças garridas, buliçosas, desenxovalhadas, francezas desde as plumas até ao talão—cousas gentilmente satanicas que se pareciam tanto com as damas de Lisboa como elle com os estouvados de Paris.
Assim que lhe entraram ao quarto, o rapaz, que as não percebia, contemplou-as com a mais sincera cara de tolo, não obstante ser prevenido da visita. Il ne laissa pas de paroître déconcerté—diz mad. de Sainctonge, a filha da gentil Vasconcellos—elles en attribuerent la cause au peu d'habitude qu'il a voit de voir des femmes.
Mas habituou-se logo; o amor ensinou-lhe tudo, sem excepção do francez. Por essa occasião lhe disse o velho:
—Este modo de viver francez deve ser estranho a um moço de paiz onde os homens não tem a menor convivencia com as senhoras.