—Gosto d'estes costumes! exclamou o rapaz.

De quem elle já gostava muito era da menina Vasconcellos; mas a paixão que o apanhou de salto não impediu que elle se mostrasse portuguez de lei, mandando pôr na mesa bocêtas de dôce nacional para regalar as meninas, e por signal que o avantajaram ás confeiteiras francezas: bassins de confitures séches beaucoup plus belles que celles qu'on fait en France—diz a citada historiadora.

O convalecente deu logo alta, e transfigurou-se.

Bailes, merendas, passeios campestres, lyrismo, conjugação dos verbos regulares e irregulares de parçaria com as pequenas, revelações, confidencias, leituras de novellas, etc. Em resumo, D. Francisco de Mello, quando voltou a Paris, não conhecia o filho, de gordo, de folgazão, de peraltice, e até d'uns vislumbres de poeta pelo ar provençal com que fallava das graças das francezas, e particularmente de mademoiselle Vasconcellos.

Amavam-se e projectavam voltar juntos e casados a Portugal. Assim o tinham decidido em sorrisos de mutua e louca felicidade n'um baile em que o moço, toda a noite, valsára com a noiva. Mais il ne prevoioit pas que la France seroit son tombeau, escreve a snr.ª de Sainctonge. Ao sahir d'esse baile, aconchegando do seio o ramilhete da adorada menina, constipou-se, e morreu de uma pleuresia seis dias depois.

Sobre este infortunio outro maior.

N'estes dias, appareceu em Paris um neto de D. Antonio, D. Luiz de Portugal. Este sujeito, que não degenerava dos vicios do avô e do pai, ainda, dous annos antes (1639) escrevêra uma carta a João Caramuel, defensor dos direitos de Castella ao throno portuguez, confessando a legitimidade de Philippe III, e offerecendo o seu braço na defeza da usurpação. A carta corria impressa, já em Portugal era conhecida, e o leitor póde vêl-a nas primeiras paginas do in-folio intitulado Philippus Prudens.

Pois não obstante este villanissimo testemunho da sua indignidade, ousou D. Luiz apresentar-se ao embaixador portuguez, encarregando-o de perguntar a D. João IV se poderia voltar á patria, e á posse dos bens de seus avós.

D. Francisco de Mello fez a pergunta a D. João IV que respondeu d'est'arte: «Perguntas d'essa natureza não se fazem.»

Mas, como D. João IV soubesse que Sebastião Gomes de Vasconcellos vivia amigavelmente com o neto de D. Antonio, recusou tambem recebel-o em Portugal; e, quanto á restituição dos bens, disse que não podia tiral-os ás pessoas a quem Philippe II os dera, porque se considerava obrigado a premiar os filhos d'essas pessoas, dos quaes fôra bem servido na sua acclamação.