A resposta era infame porque não era sincera; e, ao mesmo tempo, injuriava os que haviam trahido a patria, recebendo como paga os bens dos Vasconcellos, e injuriava os filhos d'esses traidores que tambem atraiçoaram a casa de Hespanha que lhes enriquecera os avós e os paes.
Sebastião Gomes supportou corajosamente este golpe, que ainda não devia ser o ultimo. Um dos seus amigos mais valedores era um residente que D. João IV mandára a França: Manoel Fernandes Villa-Real. Aproveitemos a descripção de mad. Sainctonge qual ella ouvira de sua filha: C'etoit un homme d'un agreable commerce; il n'avoit rien dans l'humeur de ceux de sa nation; son esprit étoit d'un caractere à le faire beaucoup d'amis; aussi tous les gens de qualité et de bon goût se faisoient un plaisir de le voir; on étoit charmé de son air ouvert et de ses manieres aisées; tous ses dehors etoient d'un parfaitement honnête homme et on ne pouvoit le connoitre sans l'estimer[20].
Manoel Fernandes de Villa Real tinha casado em Rouen com a filha de um portuguez opulento, israelita, escapulido ao santo officio. O residente de D. João IV não era—diga-se verdade—mais sincero christão que seu sogro.
Em compensação era intelligentissimo. Tinha escripto, em defeza dos direitos de seu rei, o Anti-Caramuel, que o leitor conhece. Era poeta. Fazia versos francezes, que o leitor encontra em uma collecção de elegias á Memoria da snr.ª D. Maria de Athayde. Como illustrado, ria-se dos sermões bordalengos do padre Francisco de Santo Agostinho de Macedo, prégados nos pulpitos de Paris, com descredito nacional. Censurava as baixezas que o mesmo ex-frade praticava, agenciando dinheiros com torpes pretextos. Era um homem de bem, quanto póde sêl-o um incircumciso, como o leitor e eu.
Quem o denunciára de judaisante para Portugal fôra o padre Macedo, attribuindo-lhe simultaneamente a redacção de uns papeis enviados ao cardeal Richelieu, e adversos a D. João IV.
De repente, é chamado Manoel Fernandes á presença do rei de Portugal. Contristou-se na hypothese de que ia ser substituido, depois de tão briosamente haver procedido no serviço d'el-rei. Os sustos de Sebastião Gomes anteviram mais negro desenlace. Aconselhou-o o ancião que não viesse a Portugal, pois era casado e rico em França, e tinha inimigos conjurados a perdêl-o.
Não o demoveram o amigo, a esposa e os filhos.
Partiu, quando Sebastião Gomes dizia á filha: «Elle se arrependerá; mas tarde.» Figueiredo sabia que o seu amigo era christão-novo; mas esta denominação terrivel tanto lhe confragia a alma que nem á filha a denunciou.
D'ahi a pouco tempo, o novo residente, que voltou a Paris, levou a triste nova de que Manoel Fernandes Villa-Real estava nos carceres da inquisição processado como judeu, e não muito depois soube que o seu amigo fôra condemnado á morte de garrote, e queimado no dia 10 de outubro de 1652[21].
Alquebrado pela decrepidez, Sebastião Gomes ainda achou um amigo no residente que substituira Manoel Fernandes.