Assentado, mas não seguro, no throno, cerceou a confiança aos fidalgos, e fez-se o idolo da canalha a fim de estribar-se n'ella, quando a nobreza irritada se bandeasse novamente com Hespanha. Assim lh'o aconselhára o seu ministro Lucena, em 1641; e, n'esse mesmo anno, a plebe rodeou o rei ameaçado pelos nobres, e applaudiu o supplicio dos marquez de Villa Real, duque de Caminha, conde de Armamar, D. Agostinho Manoel e outros. Francisco de Lucena, que emprestára o cutelo para a degolação dos traidores, foi mais tarde convicto de perfidia e degolado.

As cidadãs que mais se estremaram na celeuma das praças contra os conspiradores, foram as regateiras da Ribeira, capitaneadas por uma virago mulata, de alcunha a Maranhã. Esta mulher privava muito com o rei. D. João IV mandava parar o coche, quando a encontrava, dava-lhe a mão, e detinha-se em risonha palestra com a regateira. Assim o conta o diplomata D. Luiz da Cunha ao principe, que depois foi José I, em carta que corre impressa: O snr. D. João IV... mandava entrar no estribo do seu coche a celebre «Maranhã» que dominava todas as regateiras da Ribeira para se fazer mais popular, pois costumamos dizer que a voz do povo é a voz de Deus, o que nem sempre se verifica.

Outra regateira, não menos notavel em seu real beneplacito, chamava-se Brigida d'Alfama. No dia 1 de dezembro de 1640 foi ella quem de envolta com os petintaes levou de rojo o cadaver de Miguel de Vasconcellos.

Brigida, quando soube que o marquez de Villa Real e seus cumplices eram presos por traidores, pediu a qualquer poeta cesareo que lhe escrevesse cousa que ella pozesse nas regias mãos do seu soberano.

O poeta, provavelmente, trocando versos pelas colladas de Brigida d'Alfama, escreveu uma Silva, com que a regateira se foi ao paço mui aforçurada, e logrou, sem demora, entregar a D. João IV.

Eis a Silva:

Fôra descompostura
de grande atrevimento
(rei, que o mereceis ser de mil imperios),
sem ter prima tonsura
do poetico assento
tão cheio de grandezas e mysterios,
n'esta tosca Ribeira
cantar de vós a musa regateira.
Mas amor, que perdido
nos estanques passados
em que vendia carne aos tres estados
quiz, por vêr se melhora de partido,
ser cego de papeis, e a mim por musa,
que com sciencia infusa,
com quarta, ou gorgoleta
entre nos contubernios de poeta.
Amor é pois que abona
estas dôces reliquias de capona,
que Brigida começa
a entoar subida na tripeça,
por não ser o Bandarra,
que cantou cysne, o que aprendeu cigarra.
Chegue-se pois a bordo
com juizo pernialto,
para critiquizar, qualquer figura,
que aqui não canta tordo,
nem melro, que em contralto
esperdiça seu mal pela espessura.
Não ha aqui ruisenhor no bosque frio,
maganão de assobio,
e entre dôces avenas
ramilhete com voz, harpa com penas;
as minhas cantilenas
accentos são mais graves
do solidario inquisidor das aves,
que authorisado canta
compassos de guela por garganta,
hymnos á noite fria,
que viuva do dia
em anaguas se veste
bordadas de ouro sobre azul celeste.
Mas entremos no thema
e este breve intervallo
sirva de frontispicio do libello.
Escondida postema
em troiano cavallo
para tornar Lisboa um Mongibello
tinha a perfidia grega
de negra inveja, e de malicia cega,
mas lá de cima a intelligencia boa,
que ampara vossa authentica pessoa
quebrou as armadilhas
ás torpes sevandilhas
que bichinhos da terra
gigantes contra o céo sonhavam guerra;
e descobrindo o lusitano zelo
a ponta do novello
poz a cousa em estado
que quem vinha por lã, foi tosquiado.
A mim não me destouca
a primaz alimaria[19],
que era astuta serpente;
nem a cabeça louca
da poesia varia
do marquezote simples, e innocente;
nem os mais inimigos,
que da coca tocados
da esperança vã de altos estados
deram com o cabedal por esses trigos.
Tu és só que me matas,
ó Cochambre em sapatas[20],
tu, que aguia real com louco assombro
praticavas com o sol hombro por hombro
e inquinaste a lysia bizarria
de tua tão vidrada fidalguia
em affrontoso thalamo
ferindo pactos com Baeça, e Alamo[21].
Quando por sorte, ou erro
da vinha quasi morta
as velhas cepas, a maleza occulta,
é medicina o ferro:
umas, justificada a fouce corta,
outras, prudente o enxadão sepulta,
e trocando-lhe a fórma
a vinha assim reforma
pai de familias destro.
Toma o ginete um sestro,
degenera em sendeiro
das leis da fidalguia
da sua paternal cavallaria
prudente o cavalleiro
cobre com atafaes torpes, e feios
o que havia de ornar jaez e arreios.
Não sois de engenho tardo,
entendei-me o remoque, que é bernardo.
O franco, que do carro
da deusa da batalha
as avenas agora modifica;
o inglez bizarro
com toda a mais canalha
que aos altares de Marte se dedica
a vêr este interlunho
todos estão com os olhos como punho.
Se podaes esta parra
julgarão que se anima
vosso valor para fazer vindima,
se a deixaes á solta, e se desgarra
dirá vosso adversario,
que possuis o reino por precario.
N'este transe, senhor, n'esta apertura
será fraqueza a minha piedade,
pouco valor a magnanimidade,
e falta de poder qualquer brandura.
Pese tudo a prudencia a ouro fio
entenda-me che pò, que me entend'io.

Não sei se o mesmo, se outro vate patriota, escreveu e distribuiu primorosamente calligraphados alguns exemplares da seguinte poesia—tão sanguinaria quanto boçal—quando ainda fumegavam no cadafalso do Rocio os cadaveres dos conjurados, cujo supplicio pedira Brigida de Alfama:

ÁS MORTES DE D. LUIZ DE MENEZES, MARQUEZ DE VILLA REAL, DE D. MIGUEL DE NORONHA, DUQUE DE CAMINHA, DE RUY DE MATTOS DE NORONHA, CONDE DE ARMAMAR, DE D. AGOSTINHO MANOEL, OS QUAES MANDOU DEGOLAR NA PRAÇA DO ROCIO, EL-REI D. JOÃO O IV, E MAIS TRES, E UM BAEÇA, ARRASTADOS, ENFORCADOS, E ESQUARTEJADOS TODOS POR TRAIDORES, HOJE 29 DE AGOSTO DE 1641.

Ao marquez de Villa Real