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A victoria d’uma creancinha

D. Mafalda de Nellas, voltando de Miranda a Pinhel, trazia a escalavrar-lhe o coração o espinho do despeito. Isto não induz a liquidarmos que a menina amasse o primo D. Alexandre. O despeito das senhoras basta a explical-o a indifferença mesma dos homens que ellas desamam.

Como quer que fosse, Mafalda saira de Miranda, odiando o cunhado de sua irmã, no dia seguinte ao da ida d’elle para Coimbra.

Eis aqui o que ella contou ao pai, logo que chegou:

—Estava eu n’uma das grutas da quinta, quando o primo Alexandre, sentando-se, sem me vêr, nas costas da gruta, deu um grande assobio. Fez-me curiosidade aquillo, e estive quieta para vêr o que sortia d’ali. Pouco depois, chegou um homem de grandes barbas, que eu já tenho visto em nossa casa, em companhia do mano Sueiro.

—Bem sei, o desertor—atalhou o pai.

—É isso: eu já tinha ouvido lá dizer á mana, que elle era desertor.

—E depois?

—Depois o primo, assim que elle chegou, disse-lhe:—Olha que vaes commigo para Coimbra. Está decidido—e o desertor respondeu: «Pois isso é que é preciso!»—Mas vê se aparas essas barbas, que tens cara de facinora—disse o primo—eu tenho medo que, em apparecendo morto o Casimiro, todos digam que foi obra do meu creado.—Eu quando tal ouvi comecei a tremer, e tive medo d’aquelle homem! Quiz dizel-o á mana Guiomar; mas ella falla tão mal do Casimiro e da mana Christina, que julguei imprudente dizer o que ouvira.