—Eu escrevo-te de casa do administrador, dizendo-te o meu destino; naturalmente irei de lá para a cadeia; e tu, como boa gerente da casa—continuou elle jovialmente—irás lá ter, depois de ter dado as ordens para o jantar. Olha que a instauração de um processo por crime de morte não obriga a jejum, minha filha. Lembra-te que as consciencias puras concorrem muito para o bom appetite, e são optimas auxiliares do estomago. E adeus, até logo.

Christina ajoelhou com a filha nos braços, e orou. E, orando, ouvia dizer fóra:

—Mas como elle vai direito e senhor seu!

—Elle se entortará quando lhe pezarem nas costas os caibros da Portagem!

—Terá pena ultima?—perguntava uma rapariga de má vida, e acrescentava: coitadinho! é tão novo, e de mais a mais casado, e tem uma filhinha!...

—Deixal-o ter!—atalhava uma velha, que vinha da missa d’alva, e ia ouvir a segunda, para depois ir ouvir a terceira—Deixal-o ter! Quem mata, morra! As forcas não se inventaram para os que morrem, é para os que matam.

O axioma foi applaudido pelo cidadão prudente, e outros sujeitos honestos, cuja garganta zombára muitas vezes da corda de esparto do Livro V das Ordenações.

E Christina callava a oração para escutar, e orava para não ouvir.

Perguntou a authoridade a Casimiro Bettancourt o nome, a naturalidade, os annos, o estado, a profissão, etc. E proseguiu: