Casimiro agradeceu o conselho com um sorriso, e sahiu á direita do official de justiça.
Á porta da authoridade, quando Casimiro sahiu, agglomerava-se um cento de pessoas, gentio baixo, regateiras da praça de Sansão, serventes, gaiatos, e alguns cidadãos honestos, nomeadamente o oraculo da Couraça dos Apostolos. A custo rompeu o aguazil a multidão, que se premia em redor de Casimiro, e lhe roçava as faces com o halito acre da aguardente.
—Chamo soldados!—bradou o official de justiça.
—Não é preciso—disse um academico, que estanceava mais distante n’um grupo de estudantes.
E, tirando a carreteira das mãos de um lavrador, cresceu sobre a multidão, e apanhou quatro cabeças da primeira paulada. A rua, momentos depois, estava deserta, como se passasse n’ella a ira do Senhor.
—Foge que é o Lira!—diziam muitas vozes, convulsas de terror, menos o cidadão da Couraça dos Apostolos, que levou a sua cabeça ao visinho boticario.
Era, com effeito, Guilherme Lira, cujo sangue refervia em phrenesi, e sêde de beber o sangue da humanidade. Infurecia-o o remorso de ter deixado vivo D. Alexandre! Saber elle que o vil declarava ter sido assaltado por Casimiro, espicaçou-lhe o odio e a ancia de ir estrangulal-o em casa. Depois, via Casimiro preso, sabia já as suas respostas á authoridade, pungia-o o arrependimento de o perder, quando cuidava salval-o de inimigos infames, e não poder salval-o, sem se declarar elle mesmo o aggressor!
O governador civil, o reitor, as authoridades subalternas, receiosas de sublevação academica, instigada por Guilherme Lira, preveniram a tropa, e assignaram ordens de prisão dos mais celebres desordeiros, no caso de motim.
A este tempo estava na cadeia Casimiro Bettancourt, contrastando, com sua quietação, o reboliço que fremia cá fóra. Christina seguira-lhe os passos, e entrara apoz elle. Mafalda ia muito risonha e fagueira. Não fallava, mas gesticulava as suas caricias, e pendurava-se do collo do pai, beijando-lhe os olhos.