—Então que resolvem?—disse o padre.
—Resolve minha mulher,—disse Casimiro—que esse dinheiro passe ao poder do nosso mordomo, o sr. Ladislau Tiberio Militão de Villa Cova, em cujo cargo hemos por bem nomeal-o para lhe fazermos honra. Assim deve formular as suas nomeações quem tem, como eu, guarda de official á porta.
Ladislau, sorrindo, respondeu:
—A não servir de mais, deixem-me ser mordomo. Eu guardo o dinheiro, e darei contas.
Relatou o padre a sua chamada a Pinhel, e o sentir do fidalgo, com a promessa das cartas para Lisboa, caso o exito do processo fosse funesto em primeira instancia. Acrescentou que Ruy de Nellas tinha muita confiança no valimento de sua irmã, na capital, a sr.ª condessa de Asinhoso.
—É a primeira vez que ouço fallar n’essa irmã do sr. Ruy!—disse Casimiro.—Nunca me fallaste em tua tia, Christina.
—Porque a tinha esquecido—respondeu a senhora.—Eu e minhas irmãs mais novas ainda ha poucos annos soubemos que tinhamos em Lisboa uma tia. Ignoro as desintelligencias que se deram entre ella e o papá, muito antes de eu nascer. O certo é que em nossa casa nunca se fallou em tal tia, e diante do papá seria perigoso fallar. Muito me espanta agora que elle queira escrever-lhe! Vejo que meu pai está mudado!
—Sabe que desavença de familia foi essa, padre João?—perguntou Bettancourt.
—Não, senhor. Ninguem o sabe em Pinhel. Apenas sei que em Lisboa viveu desde menina a irmã do sr. Ruy de Nellas, em companhia de um grande fidalgo seu tio, e mais os dous irmãos filhos segundos. Tambem sei que estes irmãos lá morreram, e que a sr.ª casou com o conde de Asinhoso. É o que eu sei d’um clerigo velho de Pinhel, que a viu em menina, e me disse ser ella vinte annos mais nova que o morgado. Deve hoje ter, portanto, a sr.ª condessa quarenta e seis.