Pergunta que o leitor se digna fazer-me e espera a resposta.
XIV
Episodio
O padre João Ferreira escrevia miudamente ao fidalgo de Pinhel, e o mesmo Christina, bem que Ruy de Nellas tão sómente respondesse ao padre, accusando a recepção das cartas da filha, com a incumbencia de dizer a Christina que lhe eram agradaveis as suas lettras. De Casimiro Bettancourt só dizia o necessario, attinente ao processo.
Entre o velho e D. Sueiro corria declarada inimisade. Já o de Miranda sabia que o seu sogro protegia Casimiro. Escrevera-lhe altivo reprovando amargamente a incongruencia do seu proceder. O de Pinhel respondeu que o marido de Christina padecia innocente, e D. Alexandre mentia imputando-lhe a morte do faccinoroso, de que elle villãmente se acompanhava. Replicou raivoso D. Sueiro, doestando o sogro, e ejaculando phrases de lacaio a proposito do lustre de sua raça, sujada por um parente, posto que remoto garfo de seu tronco. As palavras sublinhadas affrontaram gravemente Ruy de Nellas! Este repto, quinhentos annos antes, daria de si guerra a ferro e fogo, entre os dous ricos-homens. Mas agora, n’este tempo de calmaria podre, em que as injurias se castigam na policia correccional com multa de dez tostões e custas do processo, Ruy de Nellas rebateu a provocação com outras não menos pungentes que certeiras injurias. E foi grão-caso perguntar-lhe o velho se a Madre Nazareth, fugida do mosteiro de Lorvão, em 1810, e agarrada por ordem regia nas encruzilhadas do inferno, e mettida no tronco para se depurar dos vicios, seria um garfo meritorio do tronco dos Parmas d’Eça ao qual elle Ruy de Nellas se glorificava de ser estranho? Chegadas a tal extremo as insolencias, a reconciliação era impossivel, apesar mesmo das frias tentativas de D. Guiomar, que nunca fôra amorosa filha nem irmã.
As cartas do padre ao fidalgo aventavam como certo o mau resultado do pleito em Coimbra, e invocavam o patrocinio de Ruy para que em Lisboa o supremo tribunal ou o poder moderador dirimissem a sentença condemnatoria.
Teve Ruy de Nellas como acêrto escrever desde logo a sua irmã, convidando-a a esquecerem o passado, para ir assim predispondo-a a mais de vontade o servir. A condessa de Asinhoso respondeu com muito amor ao irmão, lastimando que elle recusasse a sua amisade tantas vezes, em diversos tempos, offerecida; e accrescentava: «Eu não podia odiar o mano Ruy, que nenhuma parte tomou nos supplicios que me fizeram. Os algozes já estão na presença de Deus!»
—Ainda não está arrependida!...—disse entre si o fidalgo, relendo aquelle periodo.—Mulheres, mulheres!...—accrescentou sacudindo a cabeça.