Estranhará o leitor, que entre aqui mal cabido o episodio de umas aventuras de D. Eugenia de Nellas, condessa de Asinhoso. Conto, porém, com a sua attenção; e peço licença para me desvanecer de apontado em não me desviar da historia principal, sem ao depois me justificar do defeito.

D. Frederico de Paim e Lucena, tio materno de Ruy, vivia na capital, e muito no Paço, gozando as suas numerosas commendas, solteiro, septagenario, e abastado.

Corria por sua conta a educação palaciana de dous sobrinhos, Vasco e Gonçalo, irmãos de Ruy.

Eugenia, muito mais nova que seus irmãos, sahiu tambem de Pinhel, aos doze annos, em 1806, para ser educada em convento, visto que sua mãe tinha morrido, e sua cunhada a tractava asperamente.

Em 1811 sahiu a menina do collegio para casa de seu tio. Eram uns dezoito annos superabundantes de quantas graças feminis, raras vezes, a inspiração divina segréda aos creadores que dizem á tella ou ao marmore o seu fiat lux, e o marmore e a tella desentranham em Fornarinas de Raphael, em Collonas como as de Angelo, em Venus como as de Praxiteles. D’estas, o artista, o que não é artista, o homem de coração e sêde do bello, diz: «fel-as o cinzel ou o pincel dos anjos!» de Eugenia diria o artista, o amador, o poeta, o moço ardente, o ancião esquecido de seus ardores, diriam todos: «é um bafejo de Deus, uma alma vestida das perfeições materiaes, privativas do céu, se no céu podem conceber-se fórmas corporeas!»

Foi Eugenia requestada por consideraveis senhores da côrte. D. Frederico respondia aos que solicitavam sua mão: «Minha sobrinha é orphã de pai e mãi. Casará á sua escolha. Intenda-se com ella quem houver de ser seu marido, que eu lavo as mãos d’ahi.»

Boa resposta; mas Eugenia repellia delicadamente os pretendentes, as maviosidades, e as soberbas feridas na resistencia.

Pois tão dotada e fadada para amar, Eugenia era assim de refractaria condição ao bem supremo da vida? Dar-se-ha que o seu peito seja dentro de alabastro como se afigura no exterior?

Não; o mesmo amor de que a julgam inimiga é quem a incrueceu assim contra os aulicos, os ricos, os soberanos da galanteria d’aquelle tempo.