Amava Eugenia, e amava desatinadamente. O eleito de sua alma era um alferes de cavalleria, amavel de figura, composto de encantos; mas sem fôro grande nem pequeno, sem amigos das primeiras casas do reino, sem nome, que, ao menos, recordasse um general illustre, um lidador distincto das ultimas pelejas grandes da patria com os estranhos. Um mero e simples alferes, pallido, só, melancolico, e timido debaixo dos olhos d’ella.

O palacio de D. Frederico de Paim era na rua de Santa Barbara. O alferes passava alli duas vezes em cada dia, e alguns dias duas vezes em cada hora.

E ella via-o sempre, esperava-o sempre, esperava-o até mais vezes do que o via. Gonçalo e Vasco viam-no tambem, e diziam:

—A assiduidade d’este homem!... Que cuidará elle, ou que cuidará nossa irmã!

Indagaram pela rama; e, em occasião opportuna, disseram a Eugenia:

—Olha que o militar que vês ahi passar, e procuras vêr, é um biltre, que principiou soldado. Sirva-te isto de governo, e lembra-te que és Eugenia de Nellas Gamboa de Barbedo.

A menina, se a revelação a envergonhasse, córaria; se o coração lhe doesse, impallideceria; ora, como nem córou nem impallideceu, é razão presumir que o seu pudor e coração ficaram illesos; e, depois, concluir que ella, assim mesmo, amava-o sem pejo da baixeza d’elle nem vangloria de seus appellidos. Concluam assim que tem a maxima probabilidade do acêrto.

E o alferes continuou a passar na Rua de Santa Barbara, e a surgir no alto da collina da Penha de França, d’onde Eugenia do seu miradouro o avistava.

D. Frederico, avisado pelos sobrinhos, disse que estava seguro do bom siso de Eugenia; mas, por cautella, na primavera de 1815, quando a menina já entrava nos seus vinte annos, foi passar seis mezes á sua quinta de Camarate.

—O remedio prudente é este—disse o velho aos sobrinhos.—Não façamos alarido, que ha casos de frageis avesinhas, espavoridas por algazarras, romperem os arames da gaiola.