Quando isto foi, já o alferes se carteava com Eugenia, mediante a aia, que viera de Pinhel.
A passagem para Camarate aggravou a infermidade. Convem saber que ha casos em que o amor, o mais sadio e rosado dos deuses, se chama «infermidade». Exemplo: amarem-se duas pessoas, divorciadas pelo acaso do nascimento ou da riqueza, é infermidade; amarem-se, porém, um casal de ricos, de nobres, de ralé social, ou de mendicantes, isso sim é amor, que é saude, e só póde adoecer, n’uns, em hidropesia de tedio, n’outros, em resiccação de fome.
A quinta de Camarate era um arvoredo, que competia com o reinado de D. João III. Fôra plantado e alinhado por D. Mem Vasques de Lucena, sumilher de El-Rei, e aio do infante D. João, pai de D. Sebastião Era memoria que aquellas arvores, ainda tenras, tinham visto os amores de D. João III com D. Izabel Moniz, moça da camara da rainha D. Leonor, amores que deram de si o principe, arcebispo de Braga, D. Duarte, que morreu na flor dos annos. Para alli diziam os Lucenas que o monarcha transferira a dama, odiosa á rainha.
Parecia, pois, que a folhagem do arvoredo estava rumorejando uma chronica de reaes amores.
As fontes respondiam ás arvores, as aves ás fontes, as borboletas dialogavam com as flores, as flores trahiam com a viração as borboletas: era tudo alli um suspirar, um ouvir-se muito interno harpas e córos, symphonias aerias, milhares de pronunciações confusas da terra, dizendo todas «amor»!
E para onde elles levaram Eugenia, que já comsigo levava a saudade!—a saudade, verdugo que mata acariciando, corda de estrangulação tecida com fios de ouro, segredo que Lucifer, ao despenhar-se, roubou do céu, e nunca mais restituiu!
Alli é que o amor pegou d’ella com violenta mão, sendo que até áquelle dia lhe fôra sempre mão cheia de meiguices e serenas esperanças.
Gonçalo e Vasco julgaram sua irmã segura, e ficaram por Lisboa, onde tinham seus affectos, e suas devassidões. O velho, contente com as suas arvores, e com a menina, que lhe ouvia a menos edificativa lenda dos amores de D. Izabel Moniz, não sahia de Camarate.
Á noite, assim que a brisa esfriasse, D. Frederico digressava do jardim, dava um osculo em sua sobrinha, e fechava-se em seus aposentos.
Ora, depois ainda, a menina ficava sentada no banco rustico, resguardada de sycomoros, aspirando as baunilhas, sacudindo as granulações das pimenteiras, ou devaneando pela via lactea fóra, de constellação em constellação, com os olhos lá, e o coração na terra proxima, no muro da quinta por onde o alferes subia. E não se atemorisava dos plátanos gigantes nem das danças macabras das sombras, agitadas pelo vento da alta noute!