Á uma hora rugia a folhagem debaixo dos seus pés nas ruas ladeadas de murtas; os molossos lambiam-lhe as mãos, sorvendo os latidos ferozes; as avesinhas acordavam e saudavam-na ao passar; o rouxinol das cinceiras soltava as notas mais dilectas; e ella ia á gruta conhecida, e esperava com a mão no seio como quem diz ao coração: «Espera, ditoso impaciente!»
Ao abrir da manhã de 16 de agosto d’este anno de 1815, Eugenia ouviu quatro tiros nas cercanias da quinta, e tremeu, tremeu até cahir de joelhos.
D’ahi a pouco estrondearam os argolões do portão da quinta. A aia entrou ao quarto da menina, e disse:
—Chegaram seus irmãos. O senhor Gonçalo vem ferido n’um braço: já foi chamar-se o cirurgião ao Lumiar.
Gonçalo e Vasco estrenoutaram o tio, e fecharam-se com elle. O que ahi disseram collige-se dos successos seguintes.
Durante o dia, Eugenia não viu seus irmãos nem tio. Sabia que se faziam preparativos de viagem. Mandou indagar dos caseiros o que seriam os tiros da madrugada. Os cazeiros tinham ouvido as detonações, e a estropeada de cavallos. Estaria morto o alferes?
—Matal-o-hiam?—perguntava Eugenia á sua aia—e, depois, ousava perguntal-o a Deus.
Se ella podesse ouvir este dialogo dos irmãos...
—Chego a duvidar que as pistolas tivessem ballas—dizia Gonçalo.