Designado o dia do julgamento, o pai de Christina escreveu a sua irmã, contando-lhe os pormenores do casamento da filha, as desventuras do genro, a sua innocencia no crime assacado, a indefeza pertinaz em que se pozera, o mysterio do homicidio, a certeza de que o silencio de Casimiro Bettancourt era um heroismo de honra, talvez novo. Rematava pedindo á condessa de Asinhoso, que patrocinasse em Lisboa sua sobrinha, que era mãe e esposa extremosa.

Na ante-vespera da audiencia, travaram desordem uma malta de academicos richosos com as patrulhas nocturnas. Alguns estudantes retiraram feridos, e invocaram Guilherme Lira, em nome da honra academica. O chefe da Sociedade da Manta respondeu que n’uma das proximas noutes, seria vingada a academia.

No dia immediato entrou Guilherme no escriptorio de um tabellião, e pediu meia folha de papel sellado. Assignou-se no fundo da lauda, e fez que o notario lhe reconhecesse a assignatura.

Recolheu a casa, e deteve-se algum espaço, escrevendo no branco da folha assignada e reconhecida. Fechou em fórma de officio, lacrou, e escreveu algumas palavras no involucro. Depois fez algumas cartas: uma subscriptada a D. Joaquina Soares de Lira, sua mãi, residente em Evora; outra a sua irmã, casada em Extremoz; e ainda uma terceira brevissima, dirigida a uma senhora, que tinha o segredo da ferocidade d’aquelle homem. Terminava assim: «Não te cito para o céu nem para o inferno. Chamo-te diante do teu proprio remorso. Viste-me um anjo aos dezoito annos; e fizeste de mim isto que sou. Não te accuso: lá tens dentro d’alma o teu algoz. É tempo de acabar.»

Deitou a carta na caixa postal, e foi á cadeia, segundo o seu costume quotidiano, vêr Casimiro. Eram quatro horas da tarde. Estava o jantar na meza. Guilherme sentou-se ao lado de Christina, e comeu com appetencia. De uma vez inclinou-se ao ouvido da senhora e disse-lhe:

—Ámanhã já v. ex.ª janta em sua casa com seu marido...

Christina soltou um brado de alegria.

—Que é?!—inquiriram todos.

Guilherme fitou-a e descahiu as palpebras.

Era impôr-lhe silencio, e ella abafou a revelação, que lhe crispava nervosamente os labios, e arquejava o seio.