Notaram todos que a tarde e noute d’aquelle dia foram as mais tristes horas de Casimiro na sua prisão de dous mezes. E, comtudo, Christina escondia o seu contentamento.

Eram dez horas da noute, quando Casimiro ouviu grande grita e o estrondo de alguns tiros. Estava já sósinho, passeando febrilmente na saleta, e disse entre si:

—É agora.

O alarido e o tiroteio continuaram.

Collou o ouvido ás portadas da janella, e ouviu dizer na rua:

—Mataram o Lira.

Meia hora depois recahiu tudo em silencio quebrado pelas passadas das patrulhas em tresdobro. E o carcereiro bateu de manso á porta de Casimiro, e disse:

—Dorme?

—Não. Póde entrar.

—Vou contar-lhe o que vai. O seu amigo Lira espancou as patrulhas, que encontrou desde o bairro alto até á rua do Coruche. A Sociedade da Manta appareceu em armas, atacou reforço, que sahiu do quartel. Quando ia retirando para o Monte Arroio a estudantada debaixo de fogo, o Lira ficou atraz, sem arma nenhuma, a não ser o varapau de choupa que mettia a peito dos soldados. Tinha elle recuado até ás grades de Santa Cruz, quando cahiu morto com uma bala atravessada de fonte a fonte. Meu filho vem de observar. Faz dó ver um homem tão valente assim morto como se mata qualquer poltrão!...