A esta hora, meia noute seria, D. Alexandre de Aguilar, infamado, despresado, e solitario na sua angustia, esvasiava garrafas de cognac, no intento de aturdir-se e responder com a gargalhada do ebrio ao grito da vergonha. Os deploraveis perdidos, que se valem d’esta triaga, parece que a si proprios se estão castigando com mais crueza do que poderia castigal-os a justiça humana. Noute alta, o ébrio batia com a cabeça nas vidraças de sua janella, farpava a face nas arestas dos vidros, e rugia imprecações contra Deus. As patrulhas acummulavam-se á sua porta, e gargalhavam das estupidas objurgatorias do moço. Acudiam os academicos visinhos, e bradavam-lhe:
—Calla-te ahi, miseravel; afoga-te em cognac; não appareças mais á luz do sol; mas calla-te, besta, que, para seres fera, só te falta a bravura.
O tumulento fitava o ouvido, e respondia com roucos insultos requintados em obscenidades de alcouce.
De madrugada, o neto dos Parmas d’Eça acordou de frio que tinha o peito ensopado no proprio vomito.
Sentou-se, circumvagando os olhos espavoridos por sobre a desordem que o rodeava. Ergueu-se cambaleando, recahiu n’uma poltrona, escondeu o rosto entre as mãos, e chorou.
Oh! aquellas lagrimas é que não eram infames.
O desgraçado lembrou-se que, cinco annos antes, tinha mãi, e que a prophetica senhora muitas vezes lhe dissera: «Presagia-me o coração que has de ser desgraçado, meu filho.»
—Porque?—perguntava elle.
—Porque tens dezesete annos; sahiste hontem do collegio e já hoje escarneces a religião de teus pais. Assim tão cedo deixaste estragar o coração!... D’aqui a annos, nem por amor do teu nome, nem por calculo, serás honrado!