—As paredes abaladas especam-se, minha querida mãi; a dignidade aluida é que nunca mais se repara. Eu amo a mediania, que é o refugio da paz. As lições da vida deu-m’as o lavrador de Villa Cova. Minha mãi prometteu-me ir ver de perto a casa de entre serras, aquelle abrigo de honrados e de santos. Venha commigo alli estar uns dias, e v. ex.ª olhando d’alli para o céu, dirá: «se ha paraizo na terra, se ha bem no mundo, é aqui».
—Iremos, filho: eu tambem o desejo. Já estou convidada para ser madrinha do segundo filho de Ladislau. Bem vês que ando a cuidar-lhe do enxoval.
E, logo na semana seguinte, partiram todos para Villa Cova, e as meninas solteiras de Pinhel tambem.
Quem é este homem de jaqueta de panno azul e colete encarnado, e chapeu braguez que vai a pé, ao lado da egua em que monta a condessa?
É mestre Antonio—o carpinteiro.—Alli vai conversando em obras, que é preciso fazer aqui e acolá, nas casas arruinadas do fidalgo. A condessa trabalha por tirar este homem do officio: offerece-lhe dinheiro para erguer casa, e comprar bens. Mestre Antonio responde:
—Fidalga, grande nau grande tormenta! Deixe-me cá com a minha vida que vou bem assim. Meu filho brazileiro manda-me duzentos mil réis cada anno, e eu, a fallar verdade a v. ex.ª, tenho-os alli para uma gaveta, sem saber de que me servem. A minha alegria é o trabalho. Em pegando dous dias-santos, ando como tolo sem saber em que hei de gastar o tempo.
—Mas gaste-o em trabalhar nos seus bens.
—Nos meus bens trabalho eu, sr.ª condessa. Logo que me pagam o serviço, alguma cousa tenho dos bens em que trabalho.
Ficarás, por tanto, carpinteiro, honrado homem, mas homem honrado, toda a tua vida!
Custa a caber tanta gente na casa de Villa Cova! Armam-se leitos de bancos nos cazarões das tulhas. O quarto solemne dos padres é consignado ao fidalgo. A condessa occupa o de Peregrina. Que feliz barafunda alli vai! Os creados vem carregados de caça dos montes. O fidalgo quer ir á cosinha fazer umas troixas de ovos, cuja receita lhe deram os anjos. A condessa anda lá pelos campos a correr atraz da nétinha. As irmãs de Christina sobem á lapa da Crasta e entram de lá a berrar que lhes acudam, que as comem os lobos. O capellão da condessa, acertando de encontrar na livraria dos padres Militões as cartas manuscriptas de fr. Bartholomeu dos Martyres, persegue toda a gente para que lhe ouçam ler as cartas e os commentarios soporiferos d’elle.